Não sei mais me relacionar com o outro

Tudo começou há muito, muito tempo. Eu que não percebi. Eu era um jovem popular, cheio de energia, capaz de envolver e reunir pessoas em torno de um sonho e ideias. Isso me permitiu fazer muita coisa legal, inspirei muita gente. Até que acabou.

Acho que envelheci. Mudei. Ou me tornei o “loser” – sonhar só é aceito pela sociedade até uma certa idade; até certa idade, é bonitinho sonhar. Depois, você é um “loser”.

Para complicar, resolvi recomeçar. Retomar uma carreira da qual havia desistido tinha muito tempo. Carreira que, quando desisti, não queria ver nem pintada na minha frente. Jurei não tocar em uma calculadora outra vez na vida. Fiz Letras para fugir dos números. Sei lá… revolta de adolescente? Eu queria ser um artista! Queria e tentei… Mas anos e anos depois, a arte se mostrou improvável. Gastar dinheiro e se preocupar em juntar pessoas com algum talento que embarcariam no seu sonho sem ganhar dinheiro era estressante. A cara de pau finalmente se havia enchido de caruncho. O que me dava esperança e vontade de viver se tornou vão e vazio.

Foi então que me perdi. Me iludi afirmando que viveria na área profissional que me escolheu – eu não escolhi – e me dedicaria ao amor. Piada! Logo o amor me deixou e já há anos que não o encontro.

A alternativa foi mudar de vida, de carreira, tentar voltar para o início. Mas por quê? Por dinheiro, certamente. Por sentir saudades da calculadora e dos números (sim!). Por nostalgia – diversos professores que me deram aula no colégio técnico, o mesmo lugar, os mesmos cheiros, muitas lembranças. Por eu acreditar que poderia voltar a ser aquela pessoa sorridente, popular, querida, engraçada, relevante.

Tudo em vão. A cada dia, só me sinto mais velho. A cada dia, entendo mais e mais que minha forma de pensar é datada, não compatível com as pessoas do tempo atual, aqueles mais novos, que hoje são meus colegas de classe e a quem eu chamaria de amigos se alguma amizade de fato existisse. Aliás, o mesmo se dá no namoro. Eu envelheci, mas continuo atraído por pessoas nos seus vinte e poucos anos – enquanto eu já tenho mais de trinta e cinco. Nem sempre os interesses são os mesmos. Ou talvez eu esteja olhando no lugar errado. Fato é que tem cinco anos já que não me apaixono, ou, minto!, me apaixono, mas não consigo ser correspondido. De novo, acho que é porque estou velho de mais para essas pessoas. Morto.

E é assim que me encontro, de repente. Velho, abandonado, rejeitado, nada interessante, aquele que só vem para incomodar. De repente, todos os olhares em todos os lugares são para mim, julgadores, falando claro e alto “que esse velho quer aqui no meio da gente?” De repente, percebi que não sabia mais me relacionar intimamente com outras pessoas, somente profissionalmente e formalmente. De repente, então, as coisas deixaram de valer a pena, eu também deixei de me importar e me isolei ainda mais.

Hoje, sou o contrário do que um dia fui. O sonho já não existe mais. Pouco vale mesmo a pena.

Mas tenho lutado contra isso. Ou pelo menos tentado. Ainda há alguma esperança. O sol ainda brilha, mesmo que branco e frio. Espero que, como no inverno, esse frio solar um dia dê lugar ao verão e ao calor… que um dia a fagulha volte a brilhar-me o olhar…

Anúncios
Esse post foi publicado em Relacionamentos, Sentimentos e marcado , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s