Por que Sair do Armário é Importante

no armário

Estava ontem no supermercado e vi um carinha bastante interessante. Olhei de relance, para não deixar transparecer, e percebi que ele estava com a namorada. Casal bonito, aliás. Observei os dois por alguns instantes e notei algumas coisas: Primeiro, que eu de fato sentia inveja do cara. Inveja mesmo. Não porque ele tinha alguém especial e eu estou solteiro atualmente. Não. Senti inveja por ele ser heterossexual. Eu não ligo para bens materiais, não ligo para quase nada, de forma que não sinto inveja das pessoas e, mesmo quando namoro, nem chego a ter ciúmes. Porém, percebi que disso eu tenho mesmo inveja. Eu queria mesmo ser heterossexual. Nunca foi uma opção ou escolha minha ser gay. Apenas é, tenho de lidar com isso. Muitas vezes sinto que não sou metade da pessoa que eu poderia ser por causa disso – e por consequências psicológicas e de auto-estima relacionadas a isso. Talvez, ser hetero fizesse as coisas muito mais simples. Talvez, ser hetero me permitisse ser feliz de verdade, me permitisse ser eu mesmo e não viver me escondendo. E aí cheguei na segunda coisa que notei naquele instante: eu não gosto de ser quem sou e, por isso, não sei ser eu mesmo. Por fim, a terceira coisa que notei foi na verdade uma pergunta: será que eu realmente saí do armário?

Há muitos anos, eu saí do armário para dois amigos próximos e para minha mãe. Parei aí. No caso dos amigos, a amiga entendeu e ainda somos bons amigos até hoje, o amigo precisou de um tempo para digerir a informação, mas logo aceitou – como se alguém precisasse aceitar isso – e veio me dizer que estava de boa, mesmo ele sendo hetero e não entendendo bem. Minha mãe, no caso, que era próxima de mim na época, amiga mesmo para conversas e tal, não entendeu e foi bastante preconceituosa. Criou-se, então, um assunto em que não se fala, fingimos que tudo era como antes da conversa e fica tudo bem assim. Às vezes, porém, esse assunto reaparece: só para mencionar um caso recente, alguns meses atrás tive uma discussão boba e ela falou algo do tipo “você e esses homens de que você fica atrás”, o que foi ofensivo, até porque eu não namoro ou “fico atrás” de ninguém há uns três anos já, mas também porque soou homofóbico e altamente pejorativo.

Depois disso, só amigos gays, que me conheciam como gay já, é que sabiam de mim. Eles e uma amiga para quem contei, quando eu já morava sozinho em São Paulo. E as duas psicólogas com quem fiz terapia nesses anos, desde que me entendi gay. E fim. Sei que muita gente sabe ou desconfia, mas eu não abro a boca sobre o assunto. Não falo “ei, eu sou gay.” Mesmo este blog é anônimo e, embora eu pareça estar falando abertamente sobre o assunto, não estou. Existe o escudo do anonimato e, como o menino da foto que ilustra este post, tampo meu rosto e meu verdadeiro eu das pessoas.

Não, eu nunca saí do armário. Meus atos, minhas escolhas, meu jeito de ser refletem isso. Não falo sobre namoro com absolutamente ninguém. Não falo “meu ex-namorado” ou “Fulano é muito gato.” No máximo, digo “conheci uma pessoa.” E, muitas vezes, dou ênfase para o feminino da palavra “pessoa”, usando “ela” sempre que possível. Ela, a pessoa. Vira e mexe, tento ativar um suposto “lado heterossexual” em mim. Penso “desta vez eu namoro uma mulher”, e muitas vezes até me esforço para ter interesse em alguma delas. Mas não. Não tenho nem vontade de convidá-las para sair. Eu fiz isso antes, mas não mais. Depois de que sempre que chegava a hora de eu beijá-las ou demonstrar interesse sexual, eu não queria e me esquivava. Não quero mentir. A primeira coisa que me vem à mente é que eu estaria fazendo uma pessoa infeliz, mentindo para ela, prometendo um tipo de amor, eros, que eu nunca poderia dar. Mas eu juro que tentei… e que, às vezes, ainda penso em tentar. Até masturbação com vídeo pornô heterossexual já rolou, como uma forma de eu provar para mim mesmo que “ainda tenho esperanças.” Porém, no caso do vídeo, quando a coisa funciona é porque eu me pego interessado no homem que está fazendo sexo com a mulher.

Por que faço isso? Não sou mais adolescente faz mais de uma década e ainda nesse estou conflito. Era para eu ser mais seguro, mais auto-confiante, ter melhor auto-estima, não era? Mas não é assim. O fato é que eu não consigo me aceitar como homossexual. Tem a forma com a qual fui criado, em meio a piadas homofóbicas, em uma família religiosa que abertamente acredita que ser gay é ir para o inferno – para piorar eu também sou bastante católico e vivo nesse conflito, me afastando e me aproximando da Igreja, dependendo de como está minha auto-aceitação, que oscila há anos. (Parênteses: esta semana, vi este vídeo maravilhoso de um cara gay assumido e católico, que finalmente explicou de maneira convincente e com bom embasamento que a Bíblia na verdade não fala nada sobre orientação sexual e amor de pessoas do mesmo sexo; se quiser se surpreender positivamente como foi comigo, veja o vídeo clicando aqui.)

Toda vez que penso em ser mais eu, sempre penso na reação das pessoas, no que elas pensam de mim e como eles me julgam/julgariam. Serve para amigos de faculdade, para o trabalho, para amigos em geral e para minha família. Quando eu morava em João Pessoa, tinha meu namorado e parecia que eu estava mais OK com tudo isso, aconteceu algo interessante: eu tinha esse canal no Youtube sobre livros e filmes e fiz um vídeo falando mal de um filme popular. Claro que vieram milhares de haters me xingar e tal. Um deles escreveu: “nossa, você é muito bicha, cara.” Eu respondi: “não é o que minha namorada acha.” Meu então namorado, hoje ex-namorado, viu eu fazendo isso e me falou: “que desnecessário você escrever isso.” Contudo, mesmo em uma época em que eu parecia tranquilo com minha sexualidade, minha primeira defesa contra um comentário negativo foi dizer que eu não era gay, coisa que sou. Aliás, de todos os comentários idiotas de haters naquele vídeo, aquele foi o único que me incomodou por me atacar no meu ponto fraco, minha sexualidade.

Quer ler  mais um fato curioso?: ano passado, comecei a participar de um desafio da gratidão que consistia em postar uma foto agradecendo por algo todos os dias. Chegou no dia da Parada Gay de São Paulo e postei uma montagem com amigos – alguns hetero, inclusive – em algumas Paradas Gays de Sampa, de quando eu morava lá. Escrevi: “Gratidão por ter tido a chance de ter estado perto da diversidade e saber respeitar a todos.” Ou seja, eu nem falei ou agradeci por ser gay. O pai de um amigo meu compartilhou a foto com esse meu amigo, escrevendo “por essa eu não esperava, quem diria!”, como quem diz, “olha, ele é gay.” Até aí, OK, eu realmente não sou abertamente gay para o mundo. Mas eu fiquei super mal aquele dia e alguns dias posteriores porque “alguém pensava que eu era gay.” Ora bolas, eu SOU gay! Por causa daquilo, eu apaguei meu Facebook e passei mais de 6 meses sem uma conta em redes sociais – e consequentemente pulei fora do tal desafio da gratidão.

Chega de exemplos, acho que você já entendeu como a coisa funciona aqui. Falei no post anterior sobre um livro que estava lendo – e que terminei de ler hoje: “Apenas um Garoto”, de Bill Konigsberg. Esse livro me fez pensar muito sobre essa questão de sair do armário. Claramente, eu não saí dele ainda. Nos meus 30 anos, já tendo vivido alguns namoros duradouros com homens e tendo sido muito feliz com eles, eu ainda não saí do armário. E por sair do armário não quero dizer que preciso postar no meu Facebook para todo mundo um “Sou Gay”. Por sair do armário quero dizer que eu não tenho coragem nem de compartilhar ou curtir algo relacionado a homossexualidade no Facebook, com medo do que vão pensar se virem. Por sair do armário quero dizer que tenho vergonha de sair com algumas pessoas (gays) às vezes e ser visto por conhecidos. Por sair do armário quero dizer que passo meus dias me policiando, gastando energia medindo minhas palavras e qualquer ideia que eu possa transmitir sobre o fato de eu ser homossexual. Por sair do armário quero dizer que muitas vezes eu mesmo não me aceito assim, a ponto de olhar um cara bonito com a namorada no supermercado e sentir inveja de ele ser heterossexual.

Estou me reprimindo. Estou me contendo. Como se eu tivesse acorrentado na kryptonita meu Superman e vivesse a vida com os óculos e disfarce de Clark Kent. Os diversos posts sobre solidão, sobre não ter com quem para falar de sentimentos e pensamentos mais íntimos estão diretamente relacionados ao fato de eu não conseguir falar sobre quem eu sou, sobre minha orientação sexual, que tanto me incomoda. Tenho certeza que isso me limita em muitas coisas na vida. Tenho certeza que eu não me sinto livre por causa disso. Tenho certeza absoluta que eu não consigo me relacionar direito com minha família por causa disso – e por saber que eles não me aceitam de verdade. Tenho certeza que é difícil mesmo ter amigos íntimos se eu estou sempre me contendo, sempre escondendo um aspecto meu quando estou próximo das pessoas. Muita gente já me chamou de misterioso, dizem que não conseguem me ler, que eu sei esconder bem as emoções, o que penso, como me sinto. E é verdade. Após tantos anos me escondendo, provavelmente essa é a coisa que faço melhor na vida. E para ser feliz de verdade, para ter a chance de resolver diversas questões pessoais, para deixar uma pseudo-tristeza constante de lado, para afastar de vez o pensamento de que só com a morte eu ficarei em paz, minha única chance é me aceitar e sair do armário de verdade: para mim mesmo. Por isso é tão importante sair do armário. Será que descubro como fazer isso?

7 Dias Já Foram. Faltam 358 Dias.

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Uma resposta para Por que Sair do Armário é Importante

  1. Alguém disse:

    Sim saberá . Sinta primeiramente orgulho de quem você é. Por que você é uma pessoal muito boa, inteligente, amigo, carinhoso.

    É questão de costume, aos poucos vc acostumara a dizer meu namorado, que cara bonito…

    Ainda vivemos em um mundo preconceituoso, então é claro que a Narnia de que se sentiremos a vontade em dizer olha que cara bonito para qualquer pessoa não existe.

    Atividades físicas ajudam muito a auto-estima. Se matricule em uma academia, faça dieta, passe em um endócrino.

    Abraços

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