Quando nos apaixonamos por quem nos dá atenção

meu amigo hetero

Sabe quando parece que ao menor sinal de atenção a gente se apaixona? Pois é, parece que isso está acontecendo comigo.

Eu de fato entrei no novo desafio deste blog: desliguei celular, passei esses cinco dias iniciais experimentando uma sensação de liberdade extrema: consegui dormir mais cedo, apesar da mudança para o horário de verão desta semana, consegui ler quase um livro inteiro, consegui estudar um pouco e consegui interagir com novas pessoas e entrar um pouco mais em contato comigo mesmo.

Mas vamos por partes: Primeiro, o livro que estou lendo. Chama-se “Apenas um Garoto” e conta a história de Rafe, que se assumiu gay aos 13 anos e aos 17 decide se mudar de Estado e estudar em um colégio interno só para garotos de forma que ele não se sentisse mais “o garoto gay” do colégio. Funciona. Ele entra para o grupo de atletas, faz vários amigos heterossexuais e não revela a ninguém sobre ser gay. Ele não quer ser rotulado. Porém, ele acaba se apaixonando por seu novo “melhor amigo”, que é hetero.

Alguém parece que escreveu uma história sobre mim. Meu Deus! Como Rafe é parecido comigo!!! Claro, minha história é bem diferente, mas desde que me mudei para o interior e fui cursar engenharia, sinto-me de volta ao armário. Não que eu tenha saído completamente dele algum dia, mas minha vida prévia em João Pessoa era muito mais aberta nesse sentido: namorado que passava os fins de semana em casa, pessoas no trabalho que sabiam de mim, embora não falássemos sobre isso porque eu não abria intimidade para tanto, amigos gays, barzinho gay, essas coisas. Mas aqui no interior, morando com a família, eu me sinto reprimido, principalmente em casa, mas também na faculdade ou no trabalho, onde ninguém sabe nada sobre mim, onde falo pouco ou, na maioria dos casos, nada sobre minha sexualidade.

Não é exatamente estar no armário, mas vejamos: dos meus amigos mais próximos, apenas uma amiga sabe abertamente que sou gay; um outro amigo sabe, mas nunca falei com ele sobre isso, eu só sei que ele sabe. Na faculdade, tenho amigos gays, pois faço parte de um grupo LGBT secreto no Facebook com homens e mulheres gays ou bi que lá estudam. Porém, é um relacionamento mais virtual e com poucos – ou nenhum – amigo real. Meus amigos mais próximos na faculdade sabem que sou gay, porque eu nunca fiz questão de esconder. Então em alguns momentos eu já mencionei “o carinha que eu namorava” ou “o cara com quem estou saindo”, mas nada além disso. Contudo, acho que o que mais pega é em casa. Minha mãe sabe e nunca aceitou. Minha avó não sabe e é do tipo que reprovaria. Meus irmãos sabem e não aceitam. O namorado da minha mãe não sabe e faz questão de transparecer uma certa homofobia. Em casa é o lugar em que menos posso ser eu. Porém, até a faculdade terminar, eu não posso sair daqui, até por uma questão financeira e prática: preciso de tempo para estudar.

Agora, o segundo assunto, ligado ao primeiro diretamente: com esse tempo melhor aproveitado, tenho conseguido sentir e tentar entender o que estou sentindo. Como fica claro nos diversos posts anteriores, sinto-me muito só. Em parte porque não tenho podido ser eu. Em parte porque não tenho tempo para amigos e tal. E como Rafe, no livro que estou lendo, esta semana deixei ser levado pela situação em que eu estava e fiz o primeiro contato de novas amizades.

No primeiro caso, tive um trabalho em grupo na faculdade em uma matéria optativa em uma sala com pessoas novas. Tive, então, a chance de conhecer as pessoas do grupo ao trabalhar com elas por várias horas esta semana. Achei eles muito divertidos, com uma leveza inerente, fazendo piadas honestas e rindo muito, mesmo quando o desejo de todo mundo era terminar o trabalho logo e ir para casa. É como se tivesse me misturado com um grupo de perfil diferente daquele com que me relaciono sempre, diferente do nerd padrão e meio esquisito – sim, tenho esse problema ao me misturar com as pessoas. Então, foi um instante de normalidade, de pessoas de bem com a vida, foi gostoso mesmo. Me fez pensar se eu não tenho me misturado às pessoas erradas, que no fim nem sei se são amigas mesmo ou não.

No segundo caso, fui apresentar um trabalho ontem em São Paulo junto do pessoal da faculdade, fomos de van e tudo. Novamente, um grupo de pessoas que eu não conhecia. No início, achei que eu não ia me misturar, que iam me deixar de lado. Mas assim que saí da primeira apresentação, no coffee break, tomei a iniciativa e me aproximei de dois dos caras e perguntei, de maneira retórica, se eles eram da mesma cidade que eu. De cara me aproximei mais de um, pois fomos juntos ver de colocar nossos pôsteres no expositor. Quando voltamos para a sala da palestra seguinte, ele foi junto e se sentou comigo, conversando enquanto a palestra não terminava. Após a palestra, fomos apresentar nossos pôsteres e o outro carinha com quem eu tinha falado antes também estava próximo. No início, falamos com os avaliadores e apresentamos. Quando estávamos só esperando, comecei a puxar papo com esse segundo carinha e acabamos descobrindo um monte de coisas em comum, embora ele também tenha todo um posicionamento com relação à vida diferente também.

Em ambos os casos, foi um primeiro aproximar-se de novas amizades. Em todos eles senti que as pessoas, fossem as do grupo do trabalho da facu, fossem as da apresentação em Sampa, senti que todos eles me deram atenção. E especialmente ontem, no caso dos carinhas, eu diria que me derreti todo para os dois, como se os dois fossem meu tipo – e são mesmo, bonitos e inteligentes e tudo -, como se só porque obtive certa atenção um lado meu já acreditasse que eles teriam algum interesse romântico para comigo, o que não é verdade, até porque estamos falando de pessoas claramente heterossexuais.

Aí, depois da euforia e alegria de um dia assim, em que parece que tenho amigos – ou o início de algo que poderia ser classificado como amizade -, vem uma certa tristeza. Tristeza por saber que talvez a gente nem se veja de novo. Tristeza por entender que um possível interesse romântico não se concretizaria. Aí, então, lembro que estou praticamente de volta ao armário e que não tenho certeza se algum dia novamente poderei expressar minha sexualidade. Ah! Como eu queria conhecer alguém para namorar dessa forma: como um primeiro contato ao vivo, sem estar correndo atrás em aplicativos de encontro e essas coisas que não faço mais até por conta deste novo desafio aqui no blog.

Quem sabe um dia… Quem sabe eu deva tentar investir nessas novas amizades, quem sabe a gente faça alguma matéria junto ou dê para combinar de sair ou qualquer coisa assim. Quem sabe. O fato é que, como Rafe, eu também não quero ser classificado ou sair exclusivamente com amigos gays – coisa que nem tenho atualmente. Talvez viver uma vida com amigos heteros, fazendo coisas legais juntos… talvez isso possa ajudar a diminuir essa carência, essa carência que faz a gente ver interesses românticos em qualquer demonstração de atenção. Afinal, não dá para se iludir, e o que procuro, primordialmente, são amigos, muito mais que um namorado – que seria muito bem vindo, se for sobretudo amigo.

Faltam 360 dias.

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