O Consumo me Consome


Consumo de bens materiais, consumo de comida não essencial, consumo cultural, consumo nerd, consumo de redes sociais, consumo de pessoas. Sim! Todos são formas de consumo que, muito além de envolverem nosso dinheiro – antes fosse só isso – também consomem nosso tempo, e tempo de vida. E sabe qual o problema? O problema é que acreditamos que haverá um amanhã. E deixamos o que realmente importa para um momento que talvez nunca exista.

Eu, apesar de um recente episódio de desapego que me fez muito bem – no final do ano passado/na virada do ano – vi-me cada vez mais entregue ao consumo desenfreado. Desde o início deste ano que fui comprando coisas e parcelando no cartão de crédito. De início, precisei mesmo de algumas coisas: bermudas novas porque as velhas estavam apertadas – havia engordado -, tênis novos pois os velhos haviam estragado; mas, então, comecei a ver coisas e comprar por comprar: novas lentes de contato para abandonar os óculos – e que no final usei somente por duas semanas -, camisetas e mais camisetas em lojas nerds da Internet, assinaturas de jornais e similares, até na omeletebox eu caí – coisa mais inútil e consumista que fiz e ainda me peguei postando o unbox no snapchat – e só serviu para isso mesmo, pois todo o conteúdo me foi 100% inútil.

A conta do cartão estava – e ainda está – em 3/4 do meu salário. Valor absurdamente alto e que me obriga a entrar todo mês nas reservas da poupança. E, mesmo assim, mês após mês, continuei comprando e adicionando itens de mais de 200 reais cada no cartão. Todos absolutamente inúteis e/ou não essenciais.

Até que semana retrasada alguém roubou o número do meu cartão (devido a tantas compras na Internet, uma delas deve ter vazado o número do cartão) e me assustei. Algo fez cair a ficha e entender o quanto eu estava consumindo, me expondo, me desgastando. Cancelei as assinaturas, parei de comprar e agora planejo não ativar o novo cartão quando ele chegar (tive de bloquear o antigo, claro).

Porém, a reflexão vai muito além ao dito consumismo padrão. Nossos padrões de consumo são extremamente elevados em todos os aspectos: consumimos não só os bens materiais, mas as séries de TV que me obrigo a assistir (normalmente uma obrigação inconsciente) para “ficar em dia” e poder dar opinião na Internet (e muitas vezes mesmo sem curtir, mas se “todo mundo curte”…); consumimos também os livros do momento, que nos tornam “cool” ou “(pseudo-)intelectual” só porque o leio (muitas vezes sem gostar ou entender, mas não nos atrevemos a discordar do meu grupo de amigos/social); consumimos os filmes populares ou “do Oscar” que temos de ver como uma obrigação – e não mais como diversão; consumimos as redes sociais: os canais no Youtube, as horas de posts inúteis no facebook, os textões, as opiniões que não pedi e nem queria ler – e as que lemos só para achar alguém que concorde conosco, não importa o quão absurdas sejam tais opiniões; consumimos os shows e festas e eventos em que tiramos selfies sorridentes, mas que lá no fundo foram feitas a contragosto; consumismos alimentos mais pelo prazer de anunciar nas redes sociais aquela foto e ostentar até aquele momento que deveria ser nutritivo e muitas vezes nem isso é; consumimos pessoas que nos servem como objetos seja para ostentar a companhia e o convívio delas, seja para suprir carências em um ato de extremo egoísmo, seja por sexo ou para transformar nossa imagem; consumimos e consumimos e consumimos.

E, ao consumir todas essas coisas, a maioria de fato inúteis, absolutamente não essenciais e supérfluas, desaprendemos quem somos, desaprendemos apreciar os sorrisos mais que as roupas, as selfies, o que tal pessoa fez no sábado ou na sexta à noite.

Ao consumir tudo isso, nos consumimos. Consumimos nosso tempo – tempo de trabalho para gerar tanto dinheiro jogado fora, tempo para consumir as coisas e tempo para ostentá-las no mundo presencial e/ou nas redes sociais -, consumimos nossas próprias vidas. E para quê? Se nem ao menos nos divertimos de verdade. E o que realmente importa, as pessoas que realmente importam, a vida lá fora que realmente importa vão  sendo esquecidas, no que nos esquecemos de quem realmente somos.

Então, só ao morrermos, daremo-nos conta de que não vivemos?

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