A Consciência da Morte

  
Todo mundo, um dia, morre. Absolutamente tudo no universo deixa de existir, exceto a energia – até onde sabemos, pelo menos. Até mesmo átomos têm seu tempo de meia-vida, se desintegram, mesmo que isso leve umas centenas de milhares de anos. A mais estável ligação química está fadada ao fim, um dia. A matéria é vã, a vida – seja orgânica ou inorgânica (sim, ou você negaria que todo o Universo é vida, está em movimento?) – um dia acaba. O Sol um dia apagará, o mais distante buraco negro um dia deixará de sugar a luz.

Sabemos disso. Somos constantemente lembrados disso todos os dias, sejam com as tragédias nos jornais ou os dramas familiares ou de pessoas próximas. Todo dia tem velório, todo dia morre alguém. Mesmo assim, vivemos com a constante sensação de invencibilidade, de que nunca seremos o próximo. A ciência da morte se mistura com a efêmera certeza de que haverá um outro dia e de que o sol brilhará novamente. Mas, quem garante?

Tome a mim como exemplo: 37 anos, facilmente confundidos com 28-29 anos (posso mentir a idade à vontade, sem riscos); vivendo como alguém de 21-22 anos; cursando uma nova faculdade; se matando (percebam a ironia no uso da metáfora) para dar conta do trabalho, dos estudos e das contas; sem tempo para esportes; elevando a cada dia mais e mais o nível de estresse; compensando isso tudo em uma alimentação falha, cheia de exceções como doces, pizzas e guloseimas. 

Eu me julgava invencível: Se engordar, emagreço (já fiz isso antes com muito sucesso); se deixar de dormir, nas férias tiro o atraso; se não sobrar tempo para conviver com família, amigos ou para conhecer um novo amor, puff!, depois da facu eu cuido disso; se ficar flácido e sem fôlego por causa do sedentarismo, quando sobrar tempo volto a ter uma atividade física; se o estresse apertar muito, dou um jeito, sempre fui bom em viver sob estresse.

Em julho, tirei férias. Duas coisas a dizer sobre isso e você já, já entende o que isso tem a ver com a suposta invencibilidade: Um que eu continuei resolvendo coisas do trabalho e da faculdade durante as férias, só me desliguei durante uma semana quando viajei – logo, não consegui descansar; Dois que aproveitei para fazer o check-up que faço a cada dois anos e é aí que mora o problema.

Fiz os exames de rotina e descobri que virei hipertenso. É, aos 37, com cara de 28, tenho pressão alta. Além disso, o triglicérides está mega alto. Claro que isso não é atestado de morte, mas junte isso a pequenas coisas como dores nas costas que aparecem de vez em quando por conta de maus jeitos, uma tolerância baixa à lactose que apareceu no último ano, dores de cabeça (possivelmente por causa da pressão alta), um nível de estresse que está ficando além da minha capacidade de controlar, noites de insônia… Ou seja, um monte de coisas que alguns poucos anos atrás eu nem imaginava que poderia ter. Junte tudo isso e minha tal invencibilidade já era. 

Estou morrendo, aos poucos. Devagar, coisas que eu fazia com muita facilidade anteriormente parecem sumir da minha lista de habilidades. O corpo parece dar sinais de sua mortalidade e de que possui uma data de validade. Pode levar décadas ainda, mas estou morrendo. Sempre estive. Todos nós estamos sempre. A diferença, agora, é a consciência da morte.

E o que muda com tal ciência? Muda tudo. Será que, se tudo falhar em muito pouco tempo, eu poderei dizer que de fato vivi? Ou nos tais flashbacks da vida descobrirei eu, como temia Thoreau, que nunca vivi? Será que minhas escolhas e apostas de hoje me trarão a chance de viver daqui a 6, 7, ou 10 anos? Ou morrerei antes tentando? Ou comprometerei minha saúde a tal ponto que nada valerá a pena? E se antes dos 30 eu já sonhava com um amor duradouro, um filho e uma família minha, mas aos 37 não tenho nada disso ainda, será que mais 6 ou 10 anos de espera permitirão que eu seja pai um dia na vida? Ou deixarei essa existência sem nunca ter sido aquele que eu sempre quis ser? Sem nunca ter vivido meu Eu em sua plenitude?

Sinto que tem muita coisa errada nessa equação. Porém, cadê resposta para as questões acima? No momento, tenho só essa consciência. E medo. Medo de que saber disso me paralise e me impeça de, de fato, viver.

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2 respostas para A Consciência da Morte

  1. Dea disse:

    Oi, menino! Ri comigo mesma ao ler esse seu post pois passei pela mesma situacao aos 38 anos. Tinha a aparencia de 25, me achava invencivel e de repente, tudo caiu por terra. Em um ano engordei 20 quilos e me descobri com hipotireoidismo. Um desastre para meu corpinho de sereia, minha resistencia e minha incrivel e magica capacidade de recuperacao. Tudo se foi para sempre e descobri a mortalidade! Mas, acredito que isso faz parte do amadurecimento. Descobri seu blog agorinha, no meio de uma crise existencial, quando pensava comigo mesma o quanto ninguem consegue me compreender de verdade. Mas, lendo seus textos descobri que existe mais alguem com “nuances” (vou chamar assim…rs) muito parecidas com as minhas. Conforto! Foi o que senti. Ha muito tempo penso em criar um blog exatamente como o seu, mas nunca vem a coragem. Legal saber que vc a teve! Agora, sobre o texto acima, sera que vc ja leu algo sobre o “puer aeternus”? …rs..da uma pesquisada… Bju!

  2. Pingback: Confissões sobre 2015 ou O Ano em que me Recolhi | My Own Private Path

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