Eu sou uma boa pessoa?

 
Pergunta honesta, rápida e direta, um sim ou um não é suficiente: Sou uma boa pessoa?

Não sei se essa pergunta faz parte do escopo das pessoas. Talvez não. Se fizesse, esse mundo talvez fosse um lugar melhor. Acho que simplesmente todo mundo se acha uma boa pessoa, todo mundo tem suas razões, seus motivos para serem quem são e fazerem o que fazem. Já experimentou o exercício da empatia? Dá pra se colocar no lugar de muita gente e entendê-las. Ademais, nós, seres humanos, somos mestres em racionalizar as coisas e encontrar explicações para virtualmente tudo – mesmo que apelando para divindades, maldições, encostos…

Sei que costumo me fazer essa pergunta. Até um tempo atrás eu me achava o máximo, uma alma evoluída, ciente de minha própria evolução e considerando-me em um estágio superior. Quanta bobagem! Não acredito mais nisso. Nada mais estúpido e entorpecedor que se achar “superior” seja qual for o motivo. Não tem isso de superior. Seja por intelecto, por condições financeiras, por crenças, por religião, por orientação sexual, nacionalidade, cor da pele, abdomen sarado… Você pensa que vai pro Céu? Pense de novo.

Eu achava que ia pro Céu, que era um cara legal, uma boa pessoa. Um dia conheci alguém legal, desses por quem nos apaixonamos facilmente. Nos conhecemos, passeamos, nos vimos um tempo. Quando a coisa ia esquentar, ele se abriu comigo e contou que tinha um problema, uma condição que vinha de um erro passado, uma questão que o perseguiria a vida toda. Assustei-me, afastei-me, não sabia o que dizer, só sabia que “eu preferia ficar sozinho a me expor.” Enrolei enquanto deu, até que o tal alguém desistiu, sentindo-se mal, traído. Fui uma boa pessoa? Tive atitude decente? “Ah, mas eu não sou obrigado a ficar com ninguém nem me expor a nada.” De fato, não sou, é fácil racionalizar e explicar meu comportamento. Isso não muda, porém, o fato de eu ter sido uma péssima pessoa com ele.

Quer outro exemplo? Esses dias, na universidade, irritei-me com um amigo durante uma atividade em grupo ao perceber suas atitudes arrogantes e que, em linguagem direta, passavam a ideia de “fodam-se todos à minha volta, eu sou o único importante aqui.” Fiquei quieto e não manifestei essa irritação, misturada com um pouco de decepção – afinal, sempre o estimei muito. Depois desse dia continuei a prestar atenção em sua atitude de arrogância e pretensa superioridade. Ao notar isso, comecei a ignorá-lo, evitar sua presença, tratá-lo com rispidão e mal posso olhar-lhe nos olhos. Minha reação é explicável? Possivelmente. Mas isso não me faz uma boa pessoa. Uma boa pessoa guarda rancor e trata as pessoas dessa forma, seja quem for? …pois é, foi o que pensei.

Aliás, acho que o comportamento dele me irritou tanto porque isso diz muito sobre mim. Somos assim, né? Gostamos das pessoas que têm nossas qualidades (mesmo que sejam qualidades em potencial) e não gostamos das que possuem nossos defeitos, das que nos fazem ver quem somos de verdade e o quão ruim isso pode ser. 

Um pouco de reflexão me faz ver que tenho muito da arrogância e pretensa superioridade dele. Me faz ver o quão “evoluída” é essa minha alma. O quão fechado no meu próprio universo eu sou. O quão intenso meu “fuck the world” pode ser, mesmo que exista todo um pensamento, toda uma “aura” de amor e aceitação, de pessoa “evoluída.” Fachada. Isso é ser uma boa pessoa? Dar carona pra galera da facu me faz uma boa pessoa? Ajudá-los quando têm dúvidas nas matérias me faz uma pessoa melhor? Tratar bem a minha gata me traz o Nobel? Atender bem os clientes do trabalho me faz um Buda? Ser educado constantemente com quem quer que seja, mesmo que meu interior se corroa em ódio extremo, me faz um Jesus Cristo? Gosto de me enganar dizendo que “pelo menos estou melhor que muita gente por aí, pelo menos disfarço bem” (olha o pensamento de superioridade nesse “estou melhor que muita gente” aí), mas sou uma boa pessoa por isso? Sou de fato uma boa pessoa, sendo egoísta e corroendo-me internamente em ódio, fingindo ser uma boa pessoa por aí? 

É, pois é, foi o que pensei… Hora de trabalhar isso tudo direitinho.

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