Vontade de sumir – ou, Eu Queria…

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Sabe aquela vontade de largar tudo e ir morar nas montanhas, virar um eremita e cuidar da própria vida e só? Pois é, ela está aqui.

Aliás, é um sentimento bastante recorrente. Vira e mexe eu quero sumir, esquecer que pessoas existem e ficar sozinho no meu canto, muito embora eu deteste ficar sozinho.

A verdade é que não estou bem. Estou cansado, possivelmente estressado, querendo dormir muito e me preocupar menos. Tem muita peça fora do lugar. Tem muita decepção acontecendo. Tem muita ficha caindo e nenhuma delas parece ser positiva.

Eu queria ser outra pessoa. Dessas de comercial de margarina, vida perfeitinha. Eu queria muita coisa, algumas que já tive e parecem tão distantes hoje. Quer alguns exemplos? Olha só:

Eu queria ter feito engenharia minha vida inteira, nunca ter desviado desse caminho. Hoje eu já teria doutorado, trabalharia num lugar foda, numa posição foda e teria muito mais dinheiro que hoje. Por sorte, eu teria feito parte de pesquisas e contribuído para um mundo melhor e um planeta mais saudável.

Eu queria não ter terminado tantos namoros, queria ter ainda uma das primeiras pessoas por quem me apaixonei ou que minha última paixão fosse para sempre, que estivéssemos juntos e felizes há mais de 10 anos e que pensássemos ou já estivéssemos construindo nossa família, adotando uma criança e morando juntos, nossa própria casa. Aliás, eu queria ser hétero, tudo isso seria mais fácil.

Eu queria ter mantido a forma toda a minha vida, nunca ter deixado a academia ou exagerado na comida e nas porcarias – doces e afins. Eu queria ter um abdômen perfeitinho, desses que parece tão impossível de se ter. E queria ser desejado, que as pessoas se sentissem atraídas por mim.

Eu queria, também, ser mais solto, viver mais leve, com a cabeça no presente, sem milhares de preocupações. Queria saber lidar com tudo, sabendo dosar cada coisa e, no fim, sempre entar bem, sempre estar zen.

Queria ser definido em termos espirituais, saber de fato qual minha religião e seguí-la sem culpa. Queria ser só Wicca e não essa tripolaridade indecisa entre o ateísmo, o catolicismo e a Wicca. Queria ter tempo e saber me organizar para medidar, fazer meus rituais, participar de encontros e celebrar a vida e a Deusa. Sem medo ou sem preconceito. Aliás, por falar em preconceito, não me importaria de não ser hétero, mas queria que não houvesse preconceito, sobretudo meu medo e meu próprio preconceito com relação a tudo isso.

Queria, portanto, ser mais eu – é, parece que essa outra pessoa que eu queria ser sou eu mesmo, mas um eu mais eu -, sem me preocupar em errar, em magoar, em decepcionar, em quebrar aquela imagem “fake” e improvável de mim mesmo que construí para o mundo. Queria não ter essas mães, avós, parentes, alunos, chefes e amigos que eu mesmo crio na minha cabeça e que não me permitem ser eu mesmo e, pior ainda, que me jogam no chão e me fazem me sentir o pior dos seres humanos, um monstro, só porque é quase impossível manter essa imagem perfeitinha que não tem nada a ver com meu eu real. Queria poder gritar para o mundo quem sou, dizer meu nome, minha orientação sexual, minha religião, minhas crenças, expor minha arte, meus talentos, minhas belezas reais e minhas sombras. Queria…

Por fim, eu queria viajar mais, conhecer mais lugares, aproveitar melhor os fins de semana, sorrir mais para a vida, e tudo isso acompanhado daquela pessoa especial que mencionei logo acima. Queria não viver esmagado pelas coisas, pelas decisões, pelas lembranças de tempos supostamente melhores, pelo futuro incerto.

É… Eu queria. Há um tempo, eu estaria (e estava) correndo atrás de tudo isso. Hoje, não sei mais o que faço, piloto automático ligado, a vida passando e só sobra a vontade de sumir, fugir, coisa que, bem sei, nunca foi solução.

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Uma resposta para Vontade de sumir – ou, Eu Queria…

  1. Roberto Diniz disse:

    Celso, li esse post umas três vezes. Parabéns pela sinceridade! Sobre essa coisa de “queria ter feito engenharia…”, sorry, mas não é verdade. Pensando com a cabeça de hoje sim, mas naquele momento eram as escolhas mais corretas para aquele momento. Desculpe a sinceridade, mas acho que você está atolado de coisas, pois pensou em três rumos diferentes para a sua vida (letras, cinema e agora engenharia) e a cada mudança (gigantesca) dessas, você obrigatoriamente têm de passar por uma fase de “plantação” e isso consome muito tempo mesmo. São decisões sobre as quais haverá consequência e responsabilidades. Não há omo fugir disso. Até tem, mas “não escolher” implicará N coisas também. C’est la vie…

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