Ontem e antes de ontem

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Imagens. Turbilhão. Minha janela só vê o que foi. Não tem espelhos, não há cantos, não vê outras paisagens. Eterno e constante olhar para trás.

Meu tempo em João Pessoa vem e vem, não vai. Voa, zoa, zumbe; Grita: “Olha! Aqui!” E lembro do cheiro, do sol, do mar, da tranquilidade, do sono, da academia, dos amigos, do trabalho, do namorado, das alegrias, dos passeios, dos restaurantes, das comidas, dos hábitos, do bem-estar. “Olha! Olha!” Tanta coisa para olhar.

Quando olho com mais fervor, vejo também uma janela, não outra, mas a mesma, com seus próprios vislumbres do que já foi. E lembro da tristeza, da solidão. Não! Solidão não, se ele estava ali e, eu, era todo. Sim! Solidão, sim, pois mesmo ele se foi, como os outros. Só sobrou eu, só, todo assim, sem mim.

E aquela segunda janela balança, dança, canta, me chama a atenção. Fala: “Olha! Aqui!” E vejo os anos em São Paulo, amigos, festas, experimentos, amores, namorados, alegrias, bares, parques, cinemas, teatros, curtas-metragens, faculdade, francês, sangue jovem, drag queens, fotografias, feirinhas, livros e livrarias, eletrônicos e videogames, dinheiro gasto, dinheiro ganho, intensidade, profundidade. “Olha! Olha!” As luzes piscam. Se agitam. Hipnose.

Vejo, então, os detalhes. Há outra janela, como esta, como aquela, iluminada inteiramente de luares passados. Lembro, então, que também São Paulo era fria, era cinzenta, era irônica: Eu, só eu, na capa da invisibilidade em meio a milhões. Não, espera, não era bem assim, teve ele, aquele ex e aquele outro. Sim, era sim, todos eles, como tantos, se foram, nem mesmo olharam para trás. Ficou eu, só, assim.

Ah, mas pouco importa, pois era ela, ali, brilhante, aberta, escancarada, sussurrante: “Olha! Aqui!” E via anos no interior, o namorado, os amigos, a calma, a bicicleta, a faculdade, o primeiro amor, o primeiro emprego, os livros, a escrita, as publicações, os quadrinhos, o primeiro curta, as possibilidades, o que deixei passar.

Chego perto, olho vivo. Há mais uma delas, empoeirada, brilhando em sépia. Lembro, enfim, que mesmo lá, tudo era amargo, o emprego errado, o término do namoro, lágrimas, lágrimas… e só. Eu, só.

Limpo a poeira, olho pro descolorido, seria a última janela? Ela range, emperra, suspira: “Olha! Aqui!” Vejo o menino, as brincadeiras, os quadrinhos, a colégio técnico, a química, o coração aberto, o potencial, a juventude, as possibilidades. Era só e isso bastava. Os olhos brilhavam. O futuro, aquele mentiroso, fingido, despejava centenas, milhares de promessas. Fosse eu mais maduro teria fechado o ouvido, desviado o olhar. Eu, mais maduro, de fato nunca mais o vi, nem o hoje, nem o agora, era eu, só, e as janelas voltadas para oeste. Naquele então, contudo, ele falava a um menino inocente, sem repertório ou ciência do mundo, da vida, das relações; um menino que também era só, mas não se importava tanto; ele falava e falava um eterno blablá e, apertando os olhos, sorria e dizia, dragão reluzente a ouro: “Olha! Aqui!”

E como em todas as vezes, eu, só, assim, olhei e vi.

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