O Menino e o Cinema – parte 2

camera boy

Leia a parte 1 primeiro: clique aqui!

(…)

O menino, então, começou a pensar em se mudar para São Paulo, em estudar Cinema na USP – sim, faria um novo vestibular – e continuar fazendo seus filmes. Juntou suas energias, suas economias e se jogou no improvável. Mudou e teria um semestre para estudar para o vestibular. Estudou, mas bem pouco, pois a vida nova exigia bastante e nem sempre conseguia se concentrar nos estudos. Claro que não passou, de novo por pouco – faltou 1 ponto. Mas não tinha nada não. Ele sabia que não estudara direito e se esforçaria mais para o próximo ano.

Quando o novo ano chegou, o menino se indagou: “Mas eu já tenho uma faculdade! Será que não seria mais negócio fazer uma pós em Cinema?” Foi atrás disso e, enquanto não encontrava o que queria, produziu um novo curta-metragem. O primeiro gravado em São Paulo e com atores formados. O filme ainda era bem amador, mas percebia-se uma boa diferença entre este e o primeiro curta. Além disso, esse novo filme foi para um festival de pequeno porte e acabou levando um dos prêmios principais. Tudo começava a dar certo, as coisas começavam a trazer os resultados almejados. Só faltava mesmo a faculdade. Faltava?

No segundo semestre daquele ano, o menino passava em um processo seletivo para pós-graduação em Cinema. Estava dando conta da sua carreira no audiovisual e, ao mesmo tempo, conseguia viver bem em São Paulo, com o trabalho fluindo bem e até um novo namoro aparecendo no pedaço. Tudo perfeito.

Começou a pensar além. Se envolveu em produção de videoclipes, pilotos para programas de TV e resolveu criar um projeto para uma série de TV inspirada na antiga “Comédia do Divino”. “O Divino foi criado para o sucesso”, dizia.

Já era um novo ano quando começou o trabalho no piloto dessa série e foi quando algumas coisas começaram a dar errado. A produção foi pensada como algo gigantesco, mas, sem experiência, muita coisa não funcionou. O filme saiu, mas o preço foram algumas desavenças e parcerias quase que desfeitas.

Por um momento, o menino desanimou. Achou que não seria mais capaz de fazer filmes e, que se fosse para ser problemático do jeito que a coisa foi, então era melhor desistir mesmo. A vida amorosa também começava a ruir e o menino começava a se perder de seu caminho. Se não fossem a pós e o desejo de não trabalhar com educação, ele provavelmente teria desistido. Mas sabe como é, passar os dias triste porque se faz algo que não traz satisfação pode servir de motor para muita gente. Para o menino, com certeza.

Ele escreveu um outro roteiro, chamou seu grande parceiro dos filmes gravados em São Paulo, resolveu investir pesado – chegou a comprar uma câmera dessas profissionais caras e boas – e acabou fazendo o seu melhor filme até então. “Kinetos” teve uma produção mais complexa que a do Divino, com mais gente envolvida, mais locações, uma história mais complexa… tinha até efeitos especiais. E deu certo! Claro que o filme tinha seus problemas, mas ele era o que mais perto chegava de uma produção profissional e acabou chamando atenção em alguns festivais de Cinema de fantasia no país – no Rio de Janeiro e em Porto Alegre. O curta serviu também para o trabalho de conclusão da pós-graduação.

O tempo passou. O trabalho exigiu mais do menino. O menino também se tornou mais ambicioso, queria mais dinheiro, coisa que o Cinema nunca o deu. Acabou pegando aulas em um colégio e conseguindo um total de quase 70 horas de trabalho semanais, fora os fins de semana preparando aulas e corrigindo tarefas. Ficou sem vida social, sem amigos, sem filmes. Era só trabalho o tempo todo. O ano passou, seus filmes ficaram esquecidos. Até que um dia, conversando com um de seus amigos, ator de um de seus filmes, decidiram escrever e produzir um curta-metragem. Mesmo com a correria, o menino queria tanto um novo filme que se organizou de forma que conseguisse isso. Novamente, o desejo de mudar de área e esquecer a educação o impulsionou. Durante todo o ano, ao acordar, pensava “Eu preciso sair dessa vida” ou “Queria muito trabalhar só com filmes”.

Assim, fez “Química Orgânica”, curta-metragem de temática LGBT. O filme ficou ótimo, o mais próximo que conseguiria de algo profissional. Trabalhara com uma equipe de profissionais do audivisual, teve ajuda de gente experiente em boa parte das funções de um filme. Foi tudo tão legal que, logo após terminar o curta, escreveu o próximo, também com temática LGBT e tinha ideias para diversos outros filmes. Além disso, tinha decidido que não trabalharia tanto quanto no ano anterior, teria tempo para si mesmo e para fazer seus filmes.

O problema era que o menino já estava mergulhado por demais na profissão que tinha, nas escolas. Filmes haviam se tornado seu passatempo, seu hobby. Investindo na profissão de coordenador, acabou acatando uma decisão de seu chefe, o diretor da escola, e demitiu alguns professores, “amigos” seus, inclusive o ator envolvido no seu filme. Os “amigos” levaram tudo para o lado pessoal, houve brigas, discussões. O menino teve medo de lançar o filme e ser surpreendido por processos ou algo do gênero. “Meu melhor filme e nem vou poder lançá-lo”, pensou, triste. E como se não bastasse, ainda virou para tudo e todos e disse:

“Estou perdendo tempo fazendo esses filmes, não me levam a lugar algum. Já era para eu ter meu mestrado nessa área de ensino de idiomas e eu estaria muito melhor agora se tivesse me dedicado mais.”

Com tais palavras, tinha início a grande crise. O menino pensava em Cinema e o estresse ganhava vida quase que de maneira instantânea. Mesmo assim, perceverou. Tentou algo diferente e produziu um programa de entrevistas, fez uns vídeos institucionais e só. Estava mesmo mais focado em mudar de vida no trabalho, pois já não conseguia mais fazer o que sempre fez. Sempre foi assim, sabe? Até conseguia se empolgar em alguns momentos, mas, em geral, nunca foi o que ele quis. Educação não era sua escolha. Porém, já não acreditava mais no Cinema.

Por isso, tentou mudar de outra forma. Conseguiu um novo emprego, agora na sede da franquia em que trabalhara sua vida toda. Lá, começou a desenvolver trabalhos em vídeo: uma TV interna para treinamento, bem como filmes institucionais, filmes estes que o menino era pago para fazê-los: a primeira vez que ganhou dinheiro com Cinema. O dinheiro ganho com esses filmes chegou a compensar o valor gasto naquela câmera profissional, comprada alguns anos antes. Isso tudo foi tão intenso que o animou. O menino decidiu abrir sua produtora, vender filmes institucionais e fazer seus curtas, tentando chegar a um longa-metragem algum dia. Pensou seriamente em largar tudo, o novo emprego, e abrir sua empresa, mas os entraves burocráticos e financeiros para isso – assim como o risco de largar tudo e mergulhar na empreitada – o fizeram mudar de ideia.

Bom, mudar de ideia, sim, mas nem tanto. Pagou para um webdesigner colocar um site da Malaga’s Arts no ar, conseguiu uma logomarca nova, mais bonita, ficou com cara profissional. Retomou o projeto do programa de entrevistas, só que, agora, para Internet. A ideia era chamar a atenção no Youtube para conseguir vender a ideia para uma TV que bancasse toda a produção. Seria um emprego. Seria o emprego!

Paralelamente, chamou seu grande amigo e retomou a ideia de ter uma série do Divino. A ideia era basicamente a mesma: lançar a série no Youtube, esperar que ela chamasse a atenção e vender a ideia para um canal de TV.

O menino, empolgado, lançou o programa de entrevistas. Cada episódio teve pouco mais de mil views. A equipe queria pelo menos 10 mil. Foi pouco. Infelizmente, era um número bom para um início. Eles deveriam ter seguido adiante, corrigido o que foi criticado, gravado outros programas e mantido o canal online. O público provavelmente cresceria com o tempo e, hoje, seria um canal consolidado, desses famosos. Mas, ao contrário, o menino se estressou com tanta coisa e, ao ver os resultados, desanimou e pediu para sair do projeto.

Ficou com a série do Divino, que gravou, lançou o primeiro e, diante do resultado frio, pouco mais de 300 views, menos ainda que o programa de entrevistas, acabou nem editando os outros episódios e desistiu. Tirou o site do ar e resolveu, outra vez, se dedicar somente à carreira na educação. Ah, o erro! Não suportou. Não conseguia ser feliz. Entrou em crise, começou a questionar-se com relação a tudo, não sabia mais o que queria, quem era.

Ameaçou largar tudo, pedir demissão e mudar para Paris, a fim de fazer mestrado. Não precisou. Venderam a marca onde ele trabalhava, acabou se vendo forçado a fazer o que queria. Em algum momento raro de clareza, disse que largaria a educação e seguiria uma nova carreira, abrindo sua produtora e tentando a vida no audiovisual. Decidiu, mas lhe faltou coragem. Acabou ficando com o tal do “certo” e, quando viu que o mestrado não daria certo em Paris, voltou para o Brasil, mudando-se para João Pessoa, onde havia conseguido um emprego legal em uma escola legal.

Sim, o emprego é bem bom, mas ainda é na área de ensino e longe do Cinema. Não demorou nada e ele entendeu que não era feliz. Novamente, o mesmo sentimento, a mesma sensação. O menino não se encaixava nessa vida. Menos de 3 meses no novo emprego e acabou se inscrevendo para o vestibular na área de audiovisual. Fez a prova e passou na UFPB. Começou o curso e conheceu a realidade da educação no Brasil: uma universidade sem professores, onde os poucos que ali estão não davam as aulas, onde não existiam equipamento para os alunos dessa área – e iriam aprender tudo só na teoria.

O menino perseverou. Insistiu em concluir o primeiro semestre, mesmo com a greve e mesmo desanimando em continuar a faculdade. Não era o que queria? Era sim! Ele só não aceitava a falta de organização, a má instrução e o descaso da instituição com os alunos. Imagine fazer aulas de fotografia sem uma câmera? Como aprender? Não valeria a pena se esforçar tanto, acordar cedo, não dormir para fazer trabalhos pedidos de um dia para o outro, além de dar conta da vida profissional atual, se chegava na universidade e raramente tinha aula, se esses mesmos professores que mal davam aulas eram tiranos e tratavam todos os alunos como incapazes de um dia fazer algo que prestasse e por aí vai.

O menino desistiu da faculdade, cada vez mais desanimado com o mundo do audiovisual, com o Cinema. Tentava se dedicar à educação, tentava se convencer de que deveria abrir sua própria escola, que era essa a resposta para sua falta de motivação e crença no trabalho.

As coisas, porém, estavam erradas e o menino mostrou que ainda tinha o fogo do contador de histórias dentro de si. Juntou um grupo de pessoas e resolveu gravar um curta-metragem. Seu primeiro curta após “Química Orgânica” – e isso já fazia 5 anos! Além disso, colocou de volta o site da Malaga’s Arts, encheu-se de ideias para canais no Youtube e outros vídeos, resolveu finalmente lançar a websérie do Divino e mergulhou de cabeça em tudo isso, encontrando seu limite.

O limite era o tempo. Dedicava-se loucamente ao trabalho com educação, ao namoro e queria, também, produzir milhares de vídeos e outros trabalhos. Vários deles com intuito de fazer sucesso, de tirar-lhe dessa vidinha de sempre, que sempre odiou. Na verdade, a ânsia em conseguir o sucesso era tanta que se comparava ao desespero profundo: “Pela amor de tudo o que é sagrado, me tira dessa vida!”, pensava, suplicava.

Porém, não havia ele mesmo em nada disso. Eram teorias e mais teorias do que as outras pessoas fossem gostar. Não gostaram. O Divino teve um resultado horrível. O novo curta até que foi bem recebido, mas não chegou a 400 views, os canais do Youtube não passavam de 300 views e, para piorar, eram sobre assuntos que não agradavam o menino – imagine que ele criou um canal para falar de ensino de idiomas! Claro que não deu certo. Não deu certo porque o menino não aguentou continuar, o assunto não lhe trazia prazer, só compromisso.

O sonho do menino, dessa forma, foi morrendo com tudo isso. Morria, aos poucos, desde muito tempo. O menino se entregou à vida de sempre, à carreira que nunca escolheu e, cada vez mais, foi se distanciando daquilo que lhe dava prazer e que o fazia ser ele mesmo. Suas histórias foram desaparecendo com seus sonhos. Tudo isso o machucou muito e o menino desistiu formalmente. Anunciou o fim. Fechou o site da Malaga’s Arts. Disse que não faria mais filmes e que seu lado produtor, diretor e roteirista estava morto.

A vida, dessa forma, deixou de fazer sentido. O menino olhou para o passado. “Se Cinema não faz mais sentido, o que fará?”, questionou-se. Ensino de idiomas nunca foi o que ele escolheu, mas era tudo o que tinha. Tentou prosseguir. Viu que não dava para ser feliz. Entendeu que só havia sido feliz na educação quando podia ser diretor, produtor e roteirista nas horas vagas. Só era feliz ao fazer outra coisa, ao manter viva a promessa de ser o que sempre quis. Então, para que continuar na educação? Para que ir atrás do mestrado, sendo que nunca foi o que ele desejou? Para que continuar?

“Se não for o Cinema, então talvez seja a química. Talvez eu possa fazer engenharia”, pensou consigo mesmo. A química, porém, claramente ficou para trás. Não, não era isso. “E se eu me ordenasse padre?”, indagou-se. É, era uma ideia. Sentia uma certa atração pela vida religiosa e, seu coração, pedia que se recolhesse, que vivesse em meditação cada vez mais. No entanto, os questionamentos eram claros: “Será que eu seria padre por vocação ou para fugir daquilo que não quero, não suporto mais? Será que era uma fuga, visto que eu não tenho coragem de ser quem eu sempre quis ser? Será que vale a pena deixar tudo antes de ter me entregado, me doado 100% à carreira que eu sempre quis, ao invés de tê-la dividido com a carreira que eu nunca quis?”

Dúvidas pertinentes. Será que o menino deveria desistir de seus sonhos? Será que seus sonhos não são mais sonhados? Ou será que as constantes derrotas o fizeram perder a fé e a esperança em, um dia, ser bem sucedido? O tempo dirá. Quem sabe, um dia, possamos concluir este conto com um clichê do tipo “e ele viveu feliz para sempre”?

Só posso dizer que o menino, que mesmo não tão menino quanto já foi, ainda é muito menino em sua alma, está disposto a tentar coisas que nunca tentou. Mas terá ele a coragem que nunca teve?

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Uma resposta para O Menino e o Cinema – parte 2

  1. Kely disse:

    Gostei da sua versão sobre ficar sozinho, gosto de ficar sozinha também.

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