O Menino e o Cinema – parte 1

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Senta que lá vem a história. (Veja isto para entrar no clima – clique)

Era uma vez um menino que gostava de histórias. Ele gostava que lhe contassem histórias na hora de dormir. Gostava de livros e gostava das gravuras coloridas dos livros, daquelas com cores que não se veem por aí e que remetem a um tempo antigo, quando tudo era possível e real: fadas, E.T.s, dragões, piratas, meninos que voam, sabres de luz, kryptonitas e tudo o mais que lhe coubesse na cabecinha.

De tanto ouvir e ver histórias, quis contá-las. Começou de brincadeira, criando pequenas séries de seus heróis favoritos, fossem eles de desenho, filmes ou livros. Ainda pequeno, passou para o papel: histórias em quadrinhos com os personagens de Star Wars, Homem-Aranha e X-Men. Um dia, se atreveu a criar suas próprias histórias – personagens, mundos complexos, tudo como manda o figurino. Suas histórias ganharam corpo e profundidade. Nem a mais simples brincadeira com os Comandos em Ação escapava: tinha um enredo, uma cronologia a ser respeitada, tinha até retcon (veja a definição aqui).

Certo dia, o menino teve acesso a uma câmera. Com ela, fez uma carta em vídeo para a tia que mudara recentemente para a França. Começou a fazer trabalhos em vídeo para o colégio e a gravar pequenos programas de teor “jornalístico”. Nada de mais, mas foi um começo. Ele chamou isso tudo de Malaga’s Arts, ao pé da letra, as Artes do Malaga – Malaga era seu apelido, forma curta de Malagueta, a pimenta.

Tudo não passava de brincadeira, é claro. Nessa época, o menino começava a virar homem e tinha como decisão certa que, na universidade, estudaria química – ou “química pura”, como costumava dizer, enfatizando que não queria estudar engenharia. Ciências, em geral, sempre foram sua paixão. Havia tido kit de laboratório de química quando criança, assinava a Super Interessante, gostava de observar e experimentar com a natureza. Jurava que iria descobrir a poção da invisibilidade, uma pílula antigravitacional e, muito certamente, a fórmula para a juventude eterna, que iria de chamar Peter Pan, em homenagem a seu personagem favorito.

Foi quando aconteceu: jornais e revistas começaram a anunciar os 100 anos do Cinema. A Sétima Arte estava para completar seu primeiro centenário. Milhares de reportagens especiais, livros com a história do cinema foram lançados, os filmes mais clássicos, os mais inesquecíveis, os grandes ganhadores do Oscar, os 100 mais dos mais.

Diante de tamanha festança, o menino se encantou. Decidiu comprar sua própria câmera e fazer seus próprios filmes. Teve a ideia para um longa metragem, inspirado em histórias que inventara quando mais novo. Envolveu os amigos e, em especial, um grande amigo que sintonizara na mesma vibração. Já estava no último ano do colégio quando tudo isso aconteceu e – pasmem! – a “química pura”, que era tão certa, perdeu o lugar para o Cinema. Começara a saga do vestibular. Queria porque queria. Iria ser igual ao Spielberg. Queria trabalhar em Hollywood, ganhar um Oscar, ter milhões e milhões de dólares na conta. Seus olhos brilhavam tanto que dava para iluminar uma cena de seus vindouros filmes.

A família tentou colocar juízo ali naquela cabecinha. Ele, ao não conseguir ser aprovado no primeiro vestibular, deu o braço a torcer e foi fazer estágio em um laboratório químico, de forma a concluir o colégio técnico. Porém, passava os dias sonhando com seus filmes e personagens. Gravou diversos episódios da “Comédia do Divino”, um longa do Divino, diversos programas “jornalísticos” – onde, certa vez, entrevistou até um padre e um pastor sobre a questão do Jesus Histórico. Testou novas técnicas de edição. Entrou para o grupo de teatro da Igreja, a fim de trazer novos atores para seus filmes. Até que gravou “Detetive” e “A Família”, com outros personagens que coabitavam o universo do Divino, e acabou fazendo uma pausa, para se dedicar ao estágio.

O tempo do estágio foi um período escuro. Embora o menino guarde boas lembranças dessa época, ele também lembra de dias tristes, que ele passava preocupado com suas análises químicas, escrevendo poemas no papel toalha do laboratório sobre como os frascos âmbar com os produtos químicos atrapalhavam seu caminho para Hollywood. Mesmo assim, quando ele concluiu o estágio, no fim do ano, quis ser contratado, pois gostava daquilo ou gostava do ter o próprio dinheiro e sua liberdade financeira. Não foi o que aconteceu. Não havia vagas para novos funcionários no laboratório e seu estágio tinha mesmo acabado.

Ele tentou o vestibular novamente aquele ano, mas, sem ter estudado, acabou nem indo fazer a prova. Deixou para o ano seguinte. Um ano que começou com mais filmes “jornalísticos” da Malaga’s Arts e, especialmente, com muito trabalho no grupo de teatro e na Igreja. Eram roteiros e mais roteiros, encenações e muita coisa como ator. Os filmes de ficção da Malaga’s Arts não pararam. Gravou um filme músical, com o grupo de dança de um amigo. O tema era polêmico, falava abertamente sobre o uso de drogas, criticando-o. Com a influência da Igreja, tudo o que fazia acabava tendo uma mensagem moralizante, algumas até um pouco forçadas.

O ano foi passando, as coisas foram acontecendo e o vestibular ficava para trás. Foi então que o menino cansou-se de tudo aquilo. Tinha tido uma overdose. Não queria mais fazer filmes daquele jeito. Ele passava dias preocupado se as pessoas envolvidas iriam aparecer para gravar, preocupava-se com os roteiros, com os detalhes de produção. Embora tudo fosse bem amador e fosse divulgado somente entre os amigos, aquilo tomava tempo e energia. O menino decidiu que não queria mais saber desses filmes, muito menos da Malaga’s Arts. “Não enquanto não for profissional. Cansei dessa brincadeira de criança, quero fazer Cinema de verdade.”

Assim, e para fechar tudo com chave de ouro, ele gravou o Ano 2 do Divino e fez um festival de cinema, com premiação e tudo – onde só seus filmes concorreram, claro. Deixou o grupo de teatro da Igreja e se concentrou exclusivamente no vestibular. Entrou no cursinho, estudava loucamente, leu todos os livros recomendados. O objetivo era passar para Cinema na USP, um dos cursos mais concorridos – porque tinha pouquíssimas vagas – e com uma das mais altas notas de corte. Com tamanha pressão pessoal, a mente não aguentou e começou a expressar toda sua agonia no corpo. O menino passava mal, de tal forma que não conseguia assistir às aulas do cursinho. A pressão caía, ele tinha medo de desmaiar, suava frio, tinha taquicardia. Tudo psicológico. Foi a médicos, fez exames, era tudo coisa da cabeça.

O resultado não podia ser diferente: ficou tenso de mais na prova do vestibular e acabou errando coisas que sabia e sabia bem. Não passou, por pouco, mas o menino não podia mais aguentar a pressão. “Outro ano assim, não!”, pensou. Dessa forma, antes que o ano acabasse, decidiu que faria Letras na faculdade local. “Por que Letras?”, perguntaram. Ele dizia que era “pra aprender a escrever, assim vou virar autor de livros e vou escrever roteiros para Cinema. Vou acabar virando diretor dos meus próprios roteiros um dia e, no fim, acabo fazendo Cinema do mesmo jeito.”

Coitado, doce ilusão. O menino, porém, não perdeu a esperança. Fiel à promessa de que só voltaria a fazer filmes se fosse de forma profissional, dedicou-se à Literatura. Começou escrevendo um romance sobre o personagem Divino. Lá pela página 70 – isso naquela formatação no Word, o que seria lá pela página 150 em uma formatação mais comum de livros -, acabou desistindo. “A história não flui”, disse. Começou a escrever contos e crônicas, que seu professor de Literatura da faculdade corrigia e ajudava-o a aprimorar o estilo.

Esse professor, aliás, foi um dos melhores que já teve. Ele agia como tutor de um futuro escritor. Propunha leituras. Analisava e criticava seus contos e crônicas. O menino aprendeu a cresceu muito com isso. Tanto que, já no seu segundo ano de faculdade, começou a publicar no jornal local.

Contudo, também começou a dar aulas, pois precisava pagar sua faculdade. O jeito como ele conseguiu seu primeiro emprego foi o mais improvável: Voltava do dentista quando viu uma pequena escola de idiomas. Entrou lá e perguntou se eles precisavam de professores. A secretária o encaminhou para a diretora, que ali mesmo fez uma entrevista e já combinou o processo de treinamento. Logo ele estaria dando aulas e conseguia ajudar a pagar a faculdade.

Vivendo em um meio de professores, acabou se encantando. Dar aulas era legal, tinha um pouco de teatro, um pouco de atuação. O menino se sentia bem. Seu foco, porém, ainda era a escrita e se tornar um diretor bem sucedido de Cinema.

No entando, nem tudo é perfeito. Como diria Forest Gump, merdas acontecem. E aconteceu. O menino se apaixonou, sua primeira paixão verdadeira. Sua alma gêmea era também professor e dava aulas na mesma franquia que ele, embora em outra cidade. Foi dominado pela paixão que o menino achou que seu caminho era Letras, a sala de aula. Acabou desistindo de escrever as crônicas no jornal, depois de quase um ano publicando-as e fazendo sucesso – e polêmica. Não dava tempo de namorar, se dedicar ao trabalho – que agora era muito mais importante -, estudar e escrever para o jornal. Deixou de escrever para o jornal. Grande burrada!

O tempo passou. O namoro acabou. A depressão de fim de namoro apareceu e não quis ir embora. O menino se perdeu. Encontrar outra pessoa, de repente, era mais importante que escrever ou fazer filmes. Ele precisou de mais de um ano para se concentrar e voltar a escrever. Quando o fez, foi com um romance sobre seu primeiro namoro. Escreveu durante um ano e tentou publicá-lo. Em vão. O livro, embora elogiado por editores, foi também criticado por ser cheio de pensamentos e ter um final trágico. “Nossos leitores querem livros de leitura fácil e finais felizes.”

O menino resolveu, então, escrever outro livro. Porém, resolveu fazê-lo publicando em seu próprio fanzine literário. Criou um site, o L-Zine, onde publicava sob diversos pseudônimos. O site foi uma ideia muito boa e muito bem executada. O menino conseguiu diversas parcerias com outros sites, de forma que atraiu muitos leitores para suas crônicas e para os capítulos do novo livro, que eram publicados semanalmente. Só na lista de e-mails havia mais de 500 pessoas. Levando em consideração que isso era nos primórdios dos grandes blogs da Internet, o resultado era bom.

O blog fez sucesso, mas o menino decidiu fazer mestrado, passou como aluno especial na USP e, de novo, largou seu sonho por causa de algo que não era bem o que queria. Fechou o blog e se dedicou aos estudos e a um novo namoro, outro desses de paixão forte, que só se vive uma ou outra vez na vida. Além disso, fora promovido a coordenador da escola em que trabalhava e, claro, tinha de se dedicar ainda mais ao trabalho.

O mestrado, que era em estudos literários, contudo, não deu certo. “Eu gosto de literatura”, pensou, “mas passar a vida toda só com isso não é bem o que quero.” O menino desistiu da matéria antes do fim do semestre e resolveu se dedicar à coordenação, no trabalho, e ao namoro, na vida pessoal. Foi quando a depressão veio. Veio e foi forte. A vida não tinha sentido, a sensação era pior que aquela do estágio de química. Para piorar, o menino trabalhava cada vez mais na coordenação e ganhava ainda menos – o valor da hora era metade do que ganhava como professor. Tudo isso junto o fez pensar em desistir desse mundo do ensino. Não era o que ele queria, nunca foi.

A Malaga’s Arts começou a voltar ao pensamento do menino. Agora, com tanta nova tecnologia, era possível fazer filmes com qualidade profissional usando um computador. Era só ter um bom equipamento – uma boa câmera, um bom programa de edição, uma boa placa de vídeo – e pronto. Assim, o menino começou a pensar em trazer a Malaga’s Arts de volta à vida. Chamou seu grande amigo dos vídeos de antigamente e começaram a pensar em um roteiro, que escreveram a quatro mãos.

O menino, então, viajou aos EUA nas férias, conheceu quase todos os estúdios de Hollywood, as grandes faculdades de Cinema e encantou-se novamente. Lá nos EUA, comprou uma boa câmera, por um preço acessível e, quando voltou, começou a trabalhar no primeiro curta-metragem da nova Malaga’s Arts, dita profissional e com intuito de concorrer em festivais de cinema e em tudo o mais que fosse “sério”. Iludia-se. O curta, embora muito bem elaborado, ainda era amador. Amador, mas impressionou localmente. Foi exibido no cineclube da cidade, trouxe entrevista, debate e novos filmes. Uma nova era começava.

Contudo, aquela cidadezinha do interior não oferecia possibilidades de crescimento. Além do mais, o menino não suportava mais trabalhar na escola em que estava. Odiava o que fazia, estava cansado de ganhar menos que os professores para ser o chefe deles e ter mais trabalho e responsabilidade, e, claro, educação nunca foi o que ele quis. Nunca! Mas ele ainda era jovem e era possível tentar um recomeço.

Teria ele coragem, porém, de largar tudo e tentar o novo e abraçar seus sonhos?

Continua no próximo post……………………………..

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