O que fazer da vida?

directionSabe a sensação de dirigir sem mapa? Ou, pior, sem ao menos a noção de para onde ir – o que faz um mapa ser inútil? Ou, então, sabe aquela sensação de ir a uma nova cidade, desconhecida, onde o único lugar com que você se familiariza é a casa daquela sua tia legal? E quando você resolve sair, não sabe para onde ir, não sabe bem o que existe na cidade – no máximo, uma noção vaga de um ou outro ponto turístico – nem como chegar em qualquer canto? Por isso, acaba não saindo muito, com medo de se perder? Se você sabe do que estou falando, pode ser que me entenda ou, pelo menos, entenda este post.

Tenho um amigo que admiro muito. Desde quando nos conhecemos, ele sabe exatamente o que quer e tem uma noção clara e bastante detalhada de seus objetivos, inclusive com prazos. Ao longo dos (poucos) anos que nos conhecemos, pude acompanhar suas conquistas e, cada vez que nos encontramos, ele tem novas histórias de metas alcançadas e sabe exatamente onde está com relação às outras. Sinceramente, ele vai longe. Tenho certeza de que conseguirá absolutamente tudo o que quer.

Também tenho certeza de que eu conseguiria tudo o que quero. Não tenho dúvidas. Bastaria ter ciência dos objetivos, definir metas claras, prazos possíveis. É assim que faço no trabalho e dá muitíssimo certo. Porém, quando se trata da vida pessoal, necas de pitibiribas!

Já dizia Alanis (clique aqui para ouvir a música), “isn’t it ironic?” Eu, que sempre soube exatamente o que queria, que briguei com muita gente para estudar e fazer Cinema, que desisti de outras possibilidades com esse objetivo, de repente, me dei conta de que não era isso. Foi em 2008, mas demorou 5 anos para ter certeza de que não era Cinema. Hoje, aquele garoto que sabia o que queria, que tinha seus objetivos claros, que se mudou do interior para São Paulo a fim de estudar Cinema, que fez vários curtas, pilotos de programas, vídeos institucionais… aquele garoto não sabe o que quer. A bússola quebrou. O mapa deixou de fazer sentido. “Isn’t it ironic, don’t you think?” Ou, como dizia Cazuza (clique aqui para ouvir a música): “Aquele garoto que ia mudar o mundo, agora assiste a tudo em cima do muro, em cima do muro, yeah!”

Aliás, parece que Cazuza escreveu essa música para mim. O começo, ao menos, bate 100%: “Meu partido é um coração partido/Minhas ilusões estão todas perdidas/Os meus sonhos foram todos vendidos/É um barato que eu nem acredito/Ah, eu nem acredito.” Olha só, nem precisava escrever este post, era só colar o clipe de Ideologia aqui.

É! Quem disse que é fácil? Ano passado, estava no mesmo questionamento. No ano retrasado, também. No ano anterior, 2010, idem. Foi quando comecei este blog e tenho tudo isso registrado, você pode comprovar o que digo olhando o arquivo do blog. Tem horas que, apesar de tanta estrada, parece que não saí do lugar. Ou, pior, andei em círculos, gastando combustível, energia. É verdade que vi novas paisagens, esbarrei em pessoas legais, aprendi, cresci. Cresci? Sim! Mas foi o suficiente? O suficiente existe?

Não há dúvidas de que cresci e muito. Resolvi muita coisa, sobretudo no aspecto relacionamento, coração, autoaceitação. Já nesse aspecto profissional, acho que fiquei parado mesmo ou andando em círculos. Ainda citando o ano passado, escrevi um post sobre quem eu sou/era (leia aqui). Foi um divisor de águas. Eu estava bastante deprimido já havia um bom tempo. Quando escrevi, percebi coisas sobre mim que me faziam feliz. Foi algo tão poderoso que, no dia seguinte à escrita desse texto, eu já estava bem. Muito bem. E assim continuei todo o ano passado, mais de 6 meses. Claro que houve momentos em que eu ficava mais triste ou mais estressado ou mais preocupado. Normal. No entanto, nunca outra vez fiquei tão down. Pelo menos, não até recentemente.

Hoje, ao acordar, reli esse texto. É um texto gostoso onde ainda me encontro plenamente. As coisas que me fazem feliz ainda estão lá. Ainda gosto do cheiro da chuva em um dia de verão. Ainda gosto do frio, embora não o congelante. Ainda gosto do calor, mas só nas férias. Tudo continua igualzinho.

Todavia, não encontrei referências sobre a vida profissional ali. Não tem o que gosto. Não tem o que não gosto. Claro que, com as coisas mais gerais que menciono no post, pode-se inferir certas coisas e eliminar algumas opções. Mas não… não tem nada específico sobre a vida profissional ali. “Então como é que você ficou tão bem por tanto tempo, se isso não era questão resolvida?”, você pergunta. Relendo o texto, encontrei a resposta: as pequenas coisas da vida. Sim! Eu estava feliz porque podia sentir o vento batendo no rosto, porque podia andar e molhar os pés na praia, porque podia curtir meu namorado, porque eu gosto de pessoas e isso é algo que encontro – e muito! – em meu trabalho… e por diversas outras razões. E essas pequenas coisas bastavam, como deveriam bastar.

Além disso, eu estava na estrada. Tentei faculdade na área do audiovisual. Tentei retomar meus curtas gravando um novo, tentei uma websérie, canais no Youtube. Tentei entender se o Cinema ainda era algo que queria. Apesar de eu ainda gostar disso, acho que não. E acho também que, após esse período de águas tranquilas, em que aceitei o que fosse por causa das pequenas coisas, encontrar a resposta para o Cinema como sendo um “não” – acho que é um “não”, ainda me questiono, pois pode ser “só” mesmo a perda da fé em poder fazer Cinema profissionalmente e o cansaço da brincadeira amadora que não leva a lugar algum – me jogou para a questão anterior e fez minha paz de espírito entrar em crise. E, como se isso não fosse suficiente, dois acontecimentos do dia 13 de março me jogaram no chão de vez: a) um pequeno problema que causei a algumas pessoas e me fez questionar o que de fato eu tenho feito para ajudar a melhorar a vida neste planeta e se eu só me revolto e acabo tomando uma posição egoísta com relação à solução da coisa; b) meu namorado me contou que vai morar fora do país e eu não faço ideia do que vai ser da gente – e considere que ele era meu farol, um dos únicos motivos que eu tinha para continuar nesta cidade, fazendo o que sempre fiz, e parte fundamental dessas “pequenas coisas da vida que me fazem feliz.”

Aí agora é só colocar o texto em looping e está resolvido. Sabe a sensação de dirigir sem mapa? Ou, pior, sem ao menos a noção de para onde ir – o que faz um mapa ser inútil?…

PS: Considere este texto uma introdução ao assunto. Tem muito mais coisa a ser analisada e levada em consideração que devo abordar em um futuro post. Por enquanto, fica só a sensação. E até quando ela vai me acompanhar?

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