Por que não dá para ser amigo de ex

Li recentemente um artigo que dizia que nossas memórias são reconstruídas cada vez que nos lembramos de algo e que eventos subsequentes alteram essa memória. (Se quiser ler mais sobre isso e outros 46 fatos sobre a mente humana, acesse este link). Pensei então em como me lembro de meu ex. É… “Aquele” ex! E sabe o que aconteceu?

Notei que praticamente não consigo ter boas lembranças dele. Tudo o que lembro quando penso nele é essa sensação de perda e que não importa o que eu faça, ele vai embora e me deixa ali, sozinho, indefeso, perdido numa terra de ninguém. É como se toda a mágoa, toda a discussão, tudo o que aconteceu no fim e depois do fim se sobrepusesse e tomasse conta das coisas. Eu sei que houve bons momentos. Lembro principalmente da sensação de segurança que ele me passava quando estávamos juntos, a segurança de saber que existe alguém ali por você. Eu sei… mas cada vez que eu lembro e menciono essas coisas que eu sei elas saem diferentes. Curioso, não?

Isso tudo me intriga. Como é que posso ter momentos em que não lembro de sua existência e outros em que parece que nunca deixei de me apaixonar ou gostar? E como é que consigo acreditar que estou apaixonado se a grande maioria das lembranças que sobraram dele são negativas?

Tem horas que comparo ele com um vampiro. Não esses vampirinhos românticos e humanizados que estão em moda hoje em dia, mas aqueles dos primeiros mitos: seres das trevas, predadores da espécie humana, sem alma – e, portanto, incapazes de amar -, sedutores, rápidos, capazes de confundir a mente de sua vítima, fazê-la apaixonar-se e se entregar para o abate sem hesitar. E o mais interessante é que vampiros só conseguem fazer isso se suas vítimas escolhem se entregar. E, depois, se tornam escravas, fonte periódica de sangue. Não é sempre que vampiro mata não.

Assim, meu ex é o vampiro e eu sou aquele que escolheu ser a vítima e, desta forma, sou inteiramente responsável por tudo o que houve. Pelo que houve e pelo que continua havendo. Continua? Ah, sim! Continua. Vira e mexe as lembranças negativas reaparecem e a dor da perda se torna uma constante. É por isso que quero tanto outra pessoa, na esperança de que essa outra poderia me fazer esquecê-lo… mas tudo o que acontece é que acabo querendo que ele saiba que estou com outra pessoa. Justo ele, que aparentemente, nem sabe que existo.

Eu tenho todos os motivos para não desejar meu ex. Todos os motivos para entender que foi melhor assim, que devíamos ter terminado antes até, que nem deveríamos ter nos conhecido. De verdade. E todos esses motivos também me provam que é irreal existir uma amizade entre ex. Pelo menos, não se terminou em mágoa, em dor ou se ainda existem restos de sentimento. Por isso, não dá para ser amigo de ex. Não sou amigo de nenhum, por que tentar continuar amigo dele, tê-lo no facebook, fingir que ele liga para o “oi” que mando por mensagens de vez em quando – e que nunca responde?

Como toda vítima de vampiro, se depois de 7 anos ainda estou “na dele”, mesmo tendo tantas lembranças ruins e me sentindo culpado por elas, acreditando que, se eu tivesse sido outra pessoa, se tivesse feito algo diferente, ainda estaríamos juntos… se ainda estou na dele depois disso tudo, é porque eu quero. Consciente ou inconscientemente, isso foi uma escolha minha. E eu preciso escolher não mais amá-lo. Aceitar que acabou… e que, talvez, minhas memórias predominantemente negativas estejam certas. Aceitar que ele me fez mal sim, que não tínhamos muito em comum, que pensávamos de forma muito diferente, que logo no nosso primeiro ano de namoro aconteceram discussões que nos fizeram terminar por alguns dias, enquanto ele conhecia outra pessoa e não encontrava aquilo que procurava nessa outra pessoa e, por isso, aceitava voltar comigo. Aceitar que ele nunca foi apaixonado por mim como eu fui por ele e que ficou comigo todo o tempo que ficou porque eu era a melhor opção no momento – o velho papo de “se não encontrar a pessoa certa, continue saindo com a errada mesmo”. Aceitar que ele tentou conhecer pessoas pela Internet, que eu mesmo vi e-mails dele flertando com outras pessoas enquanto namorávamos. E que finalmente ele me traiu, quando terminamos.

Essas são minhas memórias dele e mais um monte de outras negativas que vieram depois. E mesmo assim, eu gostava dele, eu fazia o exercício de me iludir que ele gostava de mim e que precisávamos ficar juntos para sempre. Por isso essa segurança que ele me passava no começo deu lugar para a insegurança no último ano do namoro. Por que é tão difícil aceitar tudo isso? Por que eu continuo fingir explicar o fim do nosso namoro com minha ida para São Paulo? Não foi! Ele ia terminar de qualquer jeito. Por que escolher a ilusão? E tal ilusão só piora com a presença online dele, com a visão dele, o status sendo atualizado e aparecendo na minha timeline, lembrando “eu existo” e alimentando tudo isso… alimentando a dúvida, a ilusão…

Não, é impossível ser amigo de ex. Eu quero que tanta memória negativa descanse. Eu quero que tanto sofrimento seja enterrado e esquecido. Eu consegui isso com dois outros namorados, com quem nunca mantive a amizade depois de terminar. E se tudo isso é mesmo uma escolha, então eu escolho não mais ser vítima desse vampiro – e de nenhum outro! Escolho quebrar todas as promessas que lhe fiz um dia, de nunca me apaixonar de novo ou namorar alguém! (Ouviu? Eu quebro agora todas essas promessas!) Escolho enterrar-lhe uma estaca no coração e ficar livre de qualquer resto dele… Dessa forma, parando de dar-lhe tanto sangue, quem sabe eu consiga viver novamente, depois desses sete anos sem vida e sem energia. Quem sabe…

Mas agora me diz… com tanta memória negativa… com tanta coisa ruim, como é que eu consigo acreditar que existem pessoas que não são vampiras por aí? Acho que vem daí pelo menos parte do medo que eu tenho de relacionamentos hoje em dia…

 

Oh Deus, como é triste lembrar do bonito que algo ou alguém foram quando esse bonito começa a se deteriorar irremediavelmente. (Caio Fernando Abreu)
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3 respostas para Por que não dá para ser amigo de ex

  1. É difícil… sei bem como é ter um coração cego e apaixonado.
    É difícil até escolher as palavras para tentar te consolar….
    Desejo força… desejo um novo amor! um amor completo e cheio de aleegrias…
    Se cuida amigo.. Lembre-se que o antídoto esta dentro de você.
    Beijossss

  2. luan disse:

    EU sei exatamente o que é isso, e acredito que vc está indo na direção certa. Eu sei que vai aparecer um outro amor pra vc que vai te fazer feliz. Desejo tudo de bom.
    Siga sempre com leveza
    Abraçoo =p

  3. Julia disse:

    Passo por uma situação semelhante a essa… Eu estava tão consciente de mim mesma enquanto tudo acontecia, mas ao mesmo tempo estava completamente iludida. Vão fazer quatro anos que acabou, porém eu não consigo me desligar, já tentei muitas vezes e eu acho q ou eu não tentei verdadeiramente ou realmente isso é forte. Mas enfim, eu sigo vivendo e fingindo que não existe nada dentro de mim, eu me fechei.
    Consigo sorrir sim e ter momentos alegres, mas às vezes isso ainda me atormenta.

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