Seguir nossa Alma

Já reparou que a vida sempre nos impulsiona em direção daquilo que de fato viemos fazer neste mundo? Na verdade, não é a coisa mais fácil de se perceber, mas, quando começamos a abrir o olhar para isso, fica evidente. A escolha, porém, sempre estará em nossas mãos. E é aí que mora o perigo.

Examinemos a história do arqueiro Filoctetes (ver mais aqui). Filoctetes, ao partir para a guerra de Tróia, abençoado com um arco mágico cujas flechas envenenadas jamais errariam seu alvo, é mordido por uma serpente. O ferimento, mal cheiroso e desagradável, não fecha. Filoctetes é deixado, então, por seus companheiros em uma ilha, durante 10 anos de sanguinolência e derrota em Tróia. Filoctetes e o arco que só ele podia usar eram mais que necessários. Arrependidos, os homens retornam para a ilha e imploram a Filoctetes para juntar-se a seu povo na guerra, pois somente ele seria capaz de trazer a vitória. Filoctetes, sentindo-se traído, rejeita o pedido. Seu desejo é retirar-se para sua caverna, onde, em meia à dor e à solidão, poderia esperar pela morte. A sabedoria e a razão falam a Filocteto, convindando-o novamente a ajudar seu povo. Ele outra vez recusa. Até que Héracles, o herói a quem Filocteto servia como mestre de armas, aparece e consegue convencer Filocteto, que, então, segue até Tróia, mata Páris e serve de instrumento para a queda da fortaleza.

É interessante notar que Filoctetes, magoado, ferido, se sente traído e se recusa a seguir aquele que poderíamos chamar de “seu caminho”. James Hollis refere-se a tal sentimento como “ferida narcisista”. “Uma ferida narcisista”, afirma Hollis, “ocorre quando nosso senso mais profundo do eu é prejudicado e, em decorrência disso, passamos a ter a tendência de ver o mundo apenas através dessa gestalt” (entenda a expressão “gestalt” aqui). [HOLLIS, James (1997). “Sob a Sombra de Saturno: a ferida e a cura dos homens”. São Paulo: Paulus. pp.50-51]

Ora, o que acontece com Filoctetes e sua ferida narcisista é o que acontece com a grande maioria de nós: feridos, queremos a segurança e a solidão da caverna. Preferimos curtir nossa dor a transcendê-la e encarar o mundo e aquilo que somos chamados a fazer em vida. Ficar na caverna e culpar os outros por traição, choramingar pela nossa ferida e escolher esse ponto de vista para nossa vida é mais fácil, afinal.

Penso em diversas feridas que me convidam a viver, magoado, na caverna. Minha ferida narcisista tem tudo a ver com a maneira como acredito que os outros me veem. Isso ficou claro ao sair de balada no último sábado e me achar acima do peso (mesmo depois de perder 7kg no fim do ano passado). Ao invés de aceitar isso e correr atrás do prejuízo, o instinto me manda procurar a caverna e me encher de mais comida e autopiedade, confirmando, assim, a opinião que julgo que os outros fazem de mim. Preciso, então, procurar o herói que existe dentro de mim e gritar minha independência, jogando no campo de batalha, para ferir e arriscar a ser ferido.

Posso mencionar, também, outros aspectos de minha ferida, mas acho que é prolongar-me demais. Digo, somente, que até a escolha de carreira e profissão acabou ficando no recolher-me à caverna, magoado.

Todos somos feridos em diversos momentos de nossas vidas. Podemos escolher viver e nos superar mesmo com as limitações causadas por essas feridas, ou podemos nos sentir vítimas e escolher o isolamento e a solidão. Contudo, para termos a chance de crescermos como pessoa, psicológica e espiritualmente, precisamos, portanto, procurar entender nossas feridas narcisistas e deixar de viver na mágoa. Precisamos escolher o chamado de nossa alma e seguí-lo, mesmo com as feridas que nos afligem e muitas vezes nos limitam. É difícil? Para a maioria das pessoas, é sim. Mas também é possível e extremamente recompensador.

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Uma resposta para Seguir nossa Alma

  1. camilapigato disse:

    Uau! Incrível como reconheço o que você escreve. Estou finalmente saindo da minha caverna, e estou ficando orgulhosa disso. Percebo que por mais que esta tendência em buscá-la às vezes me acometa e eu porventura ceda, o cansaço deste comportamento me impulsiona para vencê-la e reagir. Estou vivendo isso agora. É incrivelmente difícil, diferente, trabalhoso. Mas é inimaginavelmente bom! 😀
    Fiquem em paz!!!!!
    Abraços,
    Camila

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