Iniciação

Não é de se estranhar que tanta coisa aconteça nos dias de hoje. De sociedades matriarcais e patriarcais, passamos a viver em uma sociedade industrial, onde o humano raramente tem vez. Com as relações distorcidas, com os papéis perdidos, as palavras jogadas, deixamos de viver um momento tão importante para a alma: a iniciação.

Refiro-me à iniciação clássica, a passagem do menino para o homem, da menina para a mulher, da criança para o adulto. Não bastam as determinações genéticas, os hormônios do crescimento. Não é porque fazemos 18 ou 21 anos que nos tornamos adultos. Sociedades mais antigas possuiam seus ritos de passagem, verdadeiros momentos de aprendizagem e crescimento da alma e da psique humana. Mas onde está o rito de passagem hoje? Depois da era industrial, perdeu-se.

Permitam-me dissertar melhor sobre a iniciação. A exemplo dos posts anteriores, citarei novamente uma passagem de “João de Ferro”, de Robert Bly: “Todas as sequências de etapas iniciatórias são lineares, e a própria iniciação assemelha-se a uma esfera. (…) Poderíamos adotar uma visão linear da iniciação masculina, em cinco etapas. Primeira, ligação com a mãe e separação dela. (…) Segunda, ligação com o pai e separação dele. (…) Terceira, a chegada da mãe masculina, ou o mentor, que ajuda o homem a reconstruir a ponte para a sua própria grandeza ou essência. (…) Quarta, aprendizado de uma energia de furacão, como ocorre com o Homem Natural, ou o Guerreiro, ou o Dioniso, ou Apolo. Quando se saiu bem, o jovem recebe um gole das águas do deus. (Essa bebida é uma das coisas que os adolescentes estão pedindo). E por fim, quinta, o casamento com a Mulher Sagrada ou a Rainha. (BLY, Robert (1991). João de Ferro – um livro sobre homens. Rio de Janeiro, Elsevier: 174-175)

Olhando tão de perto o processo iniciatório, sou fortemente tentado a pensar em minha própria iniciação. Primeira etapa? A ligação com a mãe acontece muito bem, o problema é a separação. De verdade, se tenho algo para resolver, se preciso de ajuda, minha mãe é a primeira pessoa para quem ligo. Seria isso um sinal de não conclusão da primeira etapa? Talvez não. Mas outros fatores, estes sim, poderiam indicar uma não conclusão da primeira etapa. Como, por exemplo, o fato de eu não saber afirmar minha sexualidade para minha mãe. Embora ela saiba, embora certas coisas já tenham sido ditas e mostradas. Será, então, que fiz como o menino em João de Ferro, roubei a chave embaixo do travesseiro da mãe, contudo, ao contrário dele, devolvi a chave, escondido, para de baixo do travesseiro?

A grande questão aqui é “como continuar o processo iniciatório se a primeira etapa não foi concluída, ou foi mal concluída?” Mais interessante ainda é afirmar que a mãe com quem precisamos romper não é a pessoa real, mas a mãe interna, que fomos criando e que, mesmo distante da mãe “física”, continua a fazer seu papel.

Tanta gente em nossa sociedade hoje não sai da primeira fase. As que talvez consigam se separar, ainda se prendem na segunda etapa da iniciação. Outras, nem conseguem chegar na segunda, por tudo o que ouviu ou acredita sobre o pai. Como se aproximar de alguém que, no fundo, não admiramos? Homer Simpson é um ótimo exemplo de como nossa sociedade vê os pais. Marge é um ótimo exemplo de como ainda estamos, em geral, parados na primeira fase da iniciação.E inverta a primeira fase com a segunda e talvez poderíamos falar da iniciação feminina?

Eu poderia continuar falando das outras 3 fases, mas, honestamente, acho difícil. Encontrei mães masculinas, mentores, mas somente em alguns setores da vida. Tive um ótimo mentor no que se trata de escrever literatura. Nesse sentido, passei pela terceira fase e saí, feliz, pronto para a quarta. Tive um ótimo mentor espiritual, porém, esse setor às vezes parece perdido, precisando de cuidados. No trabalho, tive ótimos mentores e pude, inclusive, trabalhar com um deles, pessoa/mentor que admiro profundamente, grande mãe masculina.

Contudo, ainda sinto-me em pedaços, com partes minhas presas na primeira fase da iniciação, outras pulando a segunda e só agora acordando para a importância da figura paterna, outras, como citado acima, vivendo plenamente a terceira fase. Como chegar, então, às quarta e quinta fases assim, em pedaços? Esse caminho, descrito neste blog, resume-se, de certa maneira, a esse processo iniciatório, a essa busca pelo gole das águas do deus, o que me colocará em contato pleno com minhas próprias energias femininas (quinta fase). Tudo o que preciso aprender, que tenho aprendido, leva-me à quarta fase da iniciação de forma completa. Enquanto isso, porém, preciso repetir uma das frases de Robert Bly: “Nossa sociedade produz muitos meninos, mas poucos homens.” E continuo, em minha jornada, no caminho de me tornar homem e deixar para trás o menino.

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