Vergonha

Do que você tem vergonha? Não importa quem seja, todo mundo tem ou já teve vergonha de algo. E não falo aqui daquele tipo passageiro de vergonha, que pode vir em um momento específico, especialmente para os mais tímidos (que certamente enfrentam muito mais situações assim). Não. Falo daquela vergonha mais profunda, que vem de tempos mais antigos e está mais enraizada em nossa alma.

Segundo Robert Bly, “a vergonha pode vir de muitas fontes: de pais que deliberadamente envergonham os filhos para torná-los mais controláveis, de pais viciados que nos envergonham como o efeito colateral do seu vício, ou de pessoas como nós, que nos envergonham para se livrarem de parte de sua própria vergonha. Pedir uma resposta de um dos pais e não a receber é motivo suficiente de vergonha; podemos assimilar um progenitor envergonhado e receber a vergonha como legado; toda invasão, seja o abuso sexual ou físico, produz em cinco minutos uma vergonha que dura 30 anos. Fingir, simplesmente, uma falsa personalidade para agradar nossos pais pode provocar vergonha a vida inteira.” (BLY, Robert (1991). João de Ferro – um livro sobre homens. Rio de Janeiro, Elsevier.)

Ler essa passagem (e outras tantas) no livro de Robert Bly tem me levado longe em devaneios, que algumas vezes já me garantiram insights magníficos. Neste meu caminho, tem sido fundamental entender que todos nós, seres humanos, trazemos conosco a vergonha de algo que nos marcou e que talvez influencie nosso comportamento até os dias de hoje de maneiras que possivelmente nem imaginamos quais sejam.

Pode ser que deixemos de tomar certas atitudes, pode ser que tomemos outras atitudes por vergonha de coisas que só existem ali, muito vivas e presentes, em nossa psique. Eu, por exemplo, tenho entendido que tenho vergonha de tantas coisas. Vergonha do meu pai, por ter sido ele quem foi – um homem corrompido pela bebida e que deixou isso acabar com seu casamento e literalmente sua vida, um homem que desistiu de uma faculdade de engenharia, que era mais ausente que presente para a família, que sucumbiu ao peso da própria vergonha e baixa autoestima… e que, apesar disso tudo, foi um homem excelente, muito boa pessoa, ajudou a família depois que seu próprio pai (um avô que nunca conheci) faleceu, que amava muito os filhos e a esposa. Vergonha também de mim mesmo, por ser quem sou, uma pessoa criativa, mais inclinado para as artes (cinema, literatura, fotografia) que para coisas consideradas “sérias” na sociedade em que vivemos. Vergonha da minha sexualidade, por vezes hetero e por muitas outras vezes fortemente inclinada para a atração ao mesmo sexo. Vergonha de amar as pessoas que amo. Vergonha de ser eu mesmo sob diversos aspectos.

É natural, assim, entender a máscara que visto (e que, aos pouquinhos, tenho tirado nos meses recentes). Acredito que a vergonha esteja diretamente relacionada com a Sombra. Por isso, entender quais são minhas vergonhas e os motivos de elas existirem, podem muito ajudar nesse processo de tirar a máscara e aliviar o peso da armadura que tenho vestido há tanto, tanto tempo.

272 dias já foram. Faltam 93

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Uma resposta para Vergonha

  1. Julie disse:

    wow! Q post phodaaaaa! Emocioneeeei. Vc me faz pensar em temas q eu nunca penso. A vergonha e o impacto dela. Thanks! Daqui pra frente vamos ser vergonha’less’? mais dárróra =]

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