Morrer com Vida

A reflexão de hoje começa com duas frases:
“Só continua vitalmente vivo aquele que está pronto para morrer com vida.” (Jung)
“Há muitas maneiras de se morrer. A morte é apenas uma delas.” (James Hollis)

Essas frases e todo pensamento relacionado a elas me lembraram muito de posts anteriores (a saber: este, este e este). A verdade é que, desde quando comecei a me conhecer melhor, um sentimento de busca, um sentimento de quebra com a realidade que sempre conheci e dei como certa se manifestou com força. Senti-me perdido, sem chão. Aquilo que eu chamava de “real” se mostrava um fino véu transparente, mera ilusão escondendo a Verdade. Estava perdido e só possuía incertezas. O que eu sentia? Que devia largar o emprego, a vida que levei alguns anos para conquistar aqui na cidade grande, os amigos, a família no interior, e embarcar em uma nova jornada: a do autoconhecimento. Para tanto, eu largaria o país e, assim, me encontraria, me reconheceria no estranho, no novo, no desafio.

Manobra extremamente arriscada, diga-se de passagem. Largar o certo pelo desconhecido, atrás da promessa de ser eu mesmo. O tempo foi passando e, após muito lutar, deixei essa ideia de lado. Senti-me covarde. Mas ser covarde também é ser humano. Resolvi esperar um pouco mais e continuar onde estava. O estranho foi identificar o motivo disso: eu não queria largar as amizades que tinha feito, pessoas maravilhosas com quem estava em contato direto no trabalho, gente que comecei a amar, como amigos que se tornaram para mim. Não era pelo trabalho em si. Ou, pelo menos, foi assim que racionalizei.

Então, quando descobri que eu podia ser feliz onde estava, confortável, sem crescer, o mundo girou e girou, e uma notícia de grande peso caiu sobre todos: a empresa tão maravilhosa em que trabalhávamos teria sido vendida e muita – muita mesmo! – coisa iria mudar. “Não, mas nós não vamos mudar.” Ah, vamos!

“Poxa! Não tive nem um par de semanas para sossegar com a ideia de que tudo devia continuar como estava!”, reclamei para mim mesmo. E o turbilhão voltou. Voltou com força. Sintomas físicos do estresse começaram a se manifestar, passei uma, talvez duas semanas me convencendo de que iria ser legal, melhor. Porém, não dá para fechar os olhos. A empresa que eu conheci não existe mais. Algumas – ou várias? – pessoas que estão ali hoje, em semanas ou meses não mais estarão. Um lado meu não quer mudar, quer a segurança do sempre, do igual. Quer se entregar ao hoje e se convencer de que será sempre assim. Quer evitar o crescimento.

Tudo na vida, contudo, indica uma direção oposta. É preciso enfrentar isso. Eu poderia continuar, tenho lugar praticamente certo na “nova” empresa, em uma nova cidade. Entretanto, eu acredito em sinais. A vida dialoga e me chama para uma nova jornada, a do crescimento. Permanecer na empresa e na vidinha que tenho hoje é evitar crescer como pessoa.

Todavia, quando comecei esse meu próprio caminho, eu sempre soube que não haveria volta e que eu haveria de arcar com todos os riscos. A escolha que queria ter feito alguns meses atrás, que talvez tivesse sido mais nobre sem esse “empurraozinho” da vida, faço agora. Escolho deixar o emprego, a vida na cidade grande, os amigos, a família no interior, e embarcar em uma nova jornada. Pois é preciso morrer para continuar vivo, o tipo de morte por que escolho passar agora tem a clara finalidade de me manter na vida. Escolho isso, porque agora sei que há outras maneiras bem piores de se morrer.

219 dias já foram. Faltam 146

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3 respostas para Morrer com Vida

  1. Julie disse:

    é assim mesmo…boa viagem, meu querido! saudades antecipadas de vc…os olhos chegam a encher de lágrimas…emocão pura! siga o seu coração e seja FELIZ, nada mais!

  2. camilapigato disse:

    Meu Deus… como entendo o que falou, embora minha experiência seja outra, completamente diferente… Mas este “abandonar o seguro” com a intenção de crescer não é fácil… Só espero que seja feliz. Morrer em vida é a pior forma… tenha força! 🙂

  3. lele disse:

    é esse o caminho. Estou reunindo coragem pra poder ter essa
    mesma atitude que vc. Morrer por dentro não é uma opção.

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