Sozinho

Durante muito e muito tempo, entendi o mundo sob a ótica do individualismo. Era assim quando ainda morava com minha mãe, era assim quando mudei do interior para a capital, era assim quando procurei meu apê, tudo para morar sozinho, me virar sozinho, ganhar meu dinheiro sozinho. Era o máximo sentir-se independente em todos os aspectos. Não precisava de ninguém para nada. (Isso até me lembra da letra de Help, dos Beatles – I never needed anybody’s help in any way). Ou, pelo menos, era nisso que eu acreditava.

O tempo passou. Sentia-me sozinho de uma forma não muito consciente, mas ainda acreditava no individualismo, na minha busca pelo isolamento. Busca, aliás, muito bem sucedida, diga-se de passagem. Por diversas razões e em diversos momentos, sumi, isolei-me cada vez mais.

Então, viajei de férias recentemente. Passei todo um mês com minha família, avó, tios, primos. Tinha pessoas com quem precisava conviver, de quem gostava, que se preocupavam. Saímos juntos várias vezes, conhecemos diversas cidades, mosteiros, igrejas, museus, monumentos… Os laços, que com a distânca e o passar dos anos pareciam ter se afrouxado, voltaram tão fortes como antes.

As férias foram passando, passando… e, quando seu fim era anunciado, quis ficar lá, desistir de tudo, mesmo! Afinal, tinha a “desculpa” de Paris, de aprimorar meus conhecimentos no idioma. Cheguei a ficar mal alguns dias, mal mesmo. Tive sonhos, muitos sonhos. Voltar era um pesadelo. Nada valia a pena. Comecei a questionar todas as razões que tinha para tanto: é o trabalho? Estou voltando pelo trabalho? Estou voltando pelo apê? Por quê? Não! Nada disso, no fundo, era ou é importante. O que importa mesmo são as pessoas que amo, minha família, os amigos… Mas… Família? Eles moram longe, não convivemos mais tão próximos. Sinto falta disso. Amigos? Idem, os verdadeiros, parecem estar tão distantes. E, aqueles que estão mais próximos, parece que os deixei ir.

Foi então que, após anos e anos, compreendi. Aquilo que realmente me incomodava não era voltar. Não era o trabalho. Não era a cidade. Era a solidão. Embora eu tenha passado tanto tempo negando que ser só me incomodava, isso não tinha como ser verdade. Sou humano e, portanto, social. A distância, a falta de pessoas me incomoda e muito.

E foi por isso que voltei. Para não fugir dessa sensação. Para fazer valer a volta. Para resgatar os amigos que realmente valem a pena. Para ter mais tempo e contato com aqueles que me importam, que se importam. Voltei porque finalmente senti meu coração abrir, após um período no limbo, fechado para balanço. Voltei para descobrir mais sobre mim mesmo e crescer.

Finalmente, voltei porque sei que esta ideia que nos é ensinada desde que nascemos, sobre sermos seres separados uns do outros, da natureza e de Deus, como se fossemos todos independentes, é uma das maiores mentiras que já se propagou pela humanidade. Assim sendo, não existe motivo para nos sentirmos sozinhos, nem para estarmos de fato sozinhos. Ainda vejo um caminho grande pela frente, até que eu veja a Realidade como ela é (não essa ilusão que chamamos de real) e até que nunca, nunca mais me sinta assim. Não é negando o que nos dói que deixamos de sofrer, é aceitando e olhando isso com compreensão.

Como já cantavam os Beatles em Help: Now I find I’ve changed my mind and opened up the doors.

132 dias já foram. Faltam 233

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4 respostas para Sozinho

  1. Alex disse:

    Realmente…. As vezes somos coagidos a vivermos uma solidão que nos colocam como necessária. Mas o que importa é esse sentimento de volta, de reencontro… É um retorno constante ao que realmetne somos… lindo texto!!!

  2. Strider disse:

    Verdade, Alex.
    Mas não digo que somos coagidos a uma solidão necessária. Acho que é mais. A solidão, o individualismo, a dita independência, é tudo vangloriado como o grande objetivo. Parece que, através da sociedade, mídia, etc, dizem que um ser humano bem sucedido é um ser humano assim. Tudo errado…

  3. Li Bittencourt disse:

    Lindas palavras, que sempre me fazem pensar…
    Adoro!
    Bjs

  4. Bronson Heleno disse:

    C, adorei! Estou sempre aqui! É recíproco o sentimento, amigo! Só eu sei como sinto falta de nossas conversas longas no sopé ou da casa da sua vó ou da minha. Abração, pra ti e seu exemplar de Moribundópolis o aguarda aqui na minha masmorra, hehehe… abração!!!

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